fbpx

4 Áreas de Oportunidade na Transformação Digital da Indústria Farmacêutica

18 de Maio, 2020

Recentemente, bem no meio da crise do Covid-19, tive a oportunidade de palestrar para todos os times da Sanofi sobre os Desafios e Oportunidades da Transformação Digital para o setor farmacêutico durante e após a pandemia. A verdade é que a responsabilidade para o setor Farmacêutico nunca esteve tão grande: precisa se transformar rapidamente para combater o Covid-19 através inovações nas áreas de vacinas, de tratamentos e de testes. Todo o mundo, a partir dos Governos e instituições internacionais até a opinião pública, está olhando de perto a atuação da indústria farmacêutica: nossa esperança está aí. O setor gerou USD 1.2 trilhões em 2018, e a perspectiva é de crescer até alcançar USD 1.5 trilhões em 2023. Meu palpite é que com a crise, o setor cresça ainda mais rapidamente.

Falando em vacinas, a Sanofi e a GsK juntaram as forças recentemente em uma colaboração inédita para combater a Covid-19: “Espera-se que os ensaios clínicos para a vacina candidata sejam realizados na segunda metade de 2020 e, se for bem-sucedida, estará disponível no segundo semestre de 2021” está escrito no blog da GSK. E olha que interessante ver 2 das 3 maiores produtoras de vacinas no mundo se juntando de forma colaborativa para compartilhar conhecimento: a Sanofi contribuirá com o antígeno COVID-19 da proteína S, enquanto a GSK disponibilizará sua comprovada tecnologia adjuvante pandêmica. No comunicado à imprensa sobre a parceria, o Paul Hudson, CEO da Sanofi, declarou que “enquanto o mundo enfrenta essa crise global de saúde sem precedentes, fica claro que nenhuma empresa pode enfrentar isso sozinha”. Achei isso interessante pois recentemente estava assistindo uma live do Yuval Harari, autor do Sapiens, no Instagram e ele falou sobre a importância da colaboração nessa crise: que enquanto um vírus na china não pode transmitir informação para um vírus no Brasil ser mais letal, o Governo chinês pode ajudar o brasileiro e vice-versa… Assim como a colaboração entre Sanofi e GSK é sinal dessa colaboração que será a cada vez mais fundamental para sair da crise. Colaboração como sinal de Inteligência Emocional por parte das lideranças e dos times? Acho que sim, e iremos ver a cada vez mais isso.

Mas a competição na indústria farmacêutica é grande, pois as barreiras para entrada no mercado tem baixado, até o ponto que a consultoria Frost & Sullivan em 2019 declarou a indústria farmacêutica em um estado de “fluxo”, e sob uma pressão competitiva nunca vista antes.

A competição inclusive está acelerando ainda mais com a crise: segundo o Milken Institute, até Abril 2020 tinha em torno de 50 vacinas para a Covid-19 e 100 tratamentos em desenvolvimento, e centenas de testes clínicos foram registrados na WHO.

Em conversa para esse artigo, o Marc Hasson, Country Managing Director Brazil na Boehringer Ingelheim, nos contou que sendo o primeiro pilar de inovação na BI de desenvolver soluções de saúde inovadoras nas áreas de doenças cardiovasculares, AVCs, diabetes, câncer e doenças rara, acelerar esse processo virou fundamental no cenário da pandemia pois quem sofre dessas doença é mais suscetíveis aos efeitos do Covid-19. Ele também disse que “embora o ramo de pesquisa de doenças infecciosas não faz parte dos ramos de pesquisa normal da BI, diante do cenário do Covid-19 a BI decidiu pesquisar vacinas, pesquisar tratamentos novos como anticorpos monoclonais para tratar o vírus, e testes diagnósticos”. “Por outros lados, tem vários pesquisadores independentes pesquisando moléculas e produtos da Boehringer Ingelheim, para diferentes etapas da doença do Covid-19 – como por exemplo o Actilyse para a situação grave do Covid-19, ou até tratamentos de saúde animal como a Ivermectina”, acrescentou o Marc Hasson. Aceleração incrível!

Mesmo assim, a vacina tem uma expectativa de 12 a 18 meses para chegar ao mercado, segundo o MIT Technology Review: como alinhar melhor a velocidade da inovação na indústria farmacêutica com a rapidez exponencial do mundo do Covid-19? Pequeno spoiler: a transformação digital está aqui para isso.

Mas eis surgem alguns questionamentos: 

  • Qual o limite entre uma maior assertividade na pesquisa e nos testes, em troca de mais dados da paciente e consequentemente uma menor privacidade dela? 
  • Como resolver a maior urgência de go-to-Market e de reduzir os tempos de triagem de novos fármacos utilizando tecnologias digitais para recrutamento, telemedicina e IoT para monitoramento, e até Inteligência Artificial para simulação?
  • Qual o risco de termos acesso infinito a informação e sentirmos empoderados como pacientes, quando a viralização de fake news está atrás do movimento contra as vacinas e pode potencialmente ser um problema no futuro assim que uma vacina for desenvolvida?
  • Qual é de fato sua maior ameaça quando tradicionalmente a indústria farmacêutica sempre teve altas barreiras à entrada (principalmente por R&D), enquanto agora a pesquisa é mais accessível e coadjuvada pela Inteligência Artificial, que pode fazer simulações de fórmulas sem grandes custos?

A pergunta aqui a se fazer é: a sua empresa está mudando na mesma rapidez que o mundo muda em torno de você? Ou pelo menos, na mesma rapidez que o seu cliente muda? Porque se a resposta for não, precisamos correr com a transformação digital, ainda mais nesse momento onde todos os olhos estão apontados a indústria farmacêutica.

Eis outra pergunta: qual o grau de maturidade digital da indústria ao momento? Não está boa: segundo uma pesquisa 2018 Digital Business Global Executive Study da Deloitte, em parceria com o MIT Sloan Management Review, ela está na casa do 20%. “O quarto estudo anual descobriu que, enquanto muitas empresas biofarmacêuticas exploram uma variedade de oportunidades digitais – desde engajar consumidores com aplicativos até melhorar as operações com inteligência artificial –, apenas 20% dos líderes disseram que suas empresas estão amadurecendo digitalmente”, ressalta Enrico De Vettori, ex-sócio para Life Science e Healthcare da Deloitte, e hoje COO da UnitedHealth.

A maioria dos líderes de biofarma aponta que suas empresas estão no início de sua jornada (25%) ou desenvolvendo suas capacidades (55%). Embora grande parte das empresas ainda esteja em fase de desenvolvimento, 58% afirmaram que o digital é uma prioridade da alta gerência, com 75% esperando alcançar o valor de suas iniciativas digitais nos próximos cinco anos. Isso é promissor!

A pesquisa revelou uma série de fatores, incluindo falta de uma visão clara, liderança inadequada e financiamento limitado para a transformação digital, embora o digital seja uma prioridade para mais da metade das empresas entrevistadas. Ao conversar com o Thiago Rocha, Digital Transformation Manager da Sandoz, ele confirmou isso ser parte do cenário Brasileiro: “Estamos vendo exemplos de maior colaboração e inovação aberta – com empresas lançando hackathons ou participando de espaços de inovação, mas até agora não houve grandes investimentos”. Com 5 anos de experiência como Specialist Manager nas áreas de Pharma/Healthcare na Accenture, ele conhece bem a realidade de grandes players locais e nos deixa uma ressalva para o artigo: “Muitas das iniciativas do artigo estão longe da maturidade de Inovação no mercado Brasileiro, pois temos que considerar que no Brasil quase não há inovação radical no contexto de desenvolvimento de novas moléculas e que mesmo com inúmeros estudos clínicos acontecendo, o Brasil não é first choice para os estudos devido a burocracias e leis bem específicas do Brasil”.

Segundo o Thales Mussi, Digital Transformation Consultant da Boheringer Ingelheim, “a dificuldade na indústria farmacêutica é sobre como aplicar o digital, não é questão de vontade porque todos já usam o digital de uma forma ou outra. O ponto é como usá-lo da forma que transforme o negócio da forma que o cliente e o consumidor quer”. Isso nos faz pensar que a necessidade de transformação é ainda mais urgente do que podíamos pensar.

Levando em conta essas barreiras, e diante dessa enorme oportunidade de transformação, quais são então as maiores áreas de oportunidade?

4 ÁREAS DE OPORTUNIDADE NA TRANSFORMAÇÃO DIGITAL DA INDÚSTRIA FARMACÊUTICA

1. Big data, Inteligência Artificial e IoT: as empresas farmacêuticas têm muito dado, acumulado ao longo de anos de operação – mas mas ainda vemos a maioria das empresas movendo os primeiros passos com projetos pilotos, e Proof of Concept ao usar esses dados. Algumas empresas porém estão já usando o data mining para melhorar seus processos produtivos, testes clínicos, e P&I, ou até colaborando no compartilhamento de dados. Desde 2014, AstraZeneca, Bayer, Celgene, Janssen Research and Development, Memorial Sloan Kettering Cancer Center, and Sanofi colaboram no projeto Data Sphere, em qual as empresas compartilham dados históricos de pesquisa sobre o câncer para ajudar nas pesquisas de forma colaborativa. O banco de dados é disponível online, e a tecnologia de dados é fornecida pela SAS, empresa global de software. 

De forma geral, existe uma enorme oportunidade de gerar valor agregado a partir de big data e analytics usando dados internos e externos. Em P&I, por exemplo,  a descoberta digital e o teste de moléculas com técnicas avançadas de modelagem e simulação serão comuns.Por exemplo, a simulação fisiológica acelerará o desenvolvimento do produto, e a modelagem 3D de tecidos ajudará a avaliar a toxicidade potencial usando simulação por computador. Em testes clínicos,, os fluxos de dados de sensores de ensaios clínicos in vivo capturados por vestíveis serão levados em consideração nos registros de registro e dossiês de valor para fornecer uma indicação precoce da eficácia no mundo real. A GSK fez um passo nessa direção em 2018 com o investimento de USD 300m na 23andMe para, entre outras coisas, ter acesso ao banco de informações de 5 milhões de pessoas que a startup detém. E a gente sabe que dados alimentam os algoritmos de Machine Learning: a GSK também é uma das empresas que mais está escalando a Inteligência Artificial, contando com um time de 50 pessoas em AI e querendo escalar para 80 até fim de 2020. A Eli Lilly também vem trabalhando forte nessa área: ela é membro do MLDPS, o Machine Learning for Pharmaceutical Discovery and Synthesis Consortium, que é uma colaboração com o MIT para desenvolver software para automatizar o descobrimento e as synthesis de pequenas moléculas. 

Na área do marketing e vendas, também o papel do Big Data é fundamental para entender o comportamento de prescrição e os perfis de pacientes em potencial, possibilitando uma segmentação mais precisa dos fornecedores e aumentando o número de prescrições arquivadas. Por exemplo, uma tecnologia de “busca de pacientes” que explora registros médicos eletrônicos para identificar pacientes com doenças raras específicas permitirá que as forças de vendas e os contatos da ciência médica se concentrem nos prestadores de cuidados que cuidam dos pacientes com probabilidade de ter essas doenças, embora ainda não tenham sido diagnosticados. Mas atenção: empresas de tecnologia como a Apple, IBM, e Qualcomm Technologies estão entrando com força na área de saúde, indo gerar muito dado: Eles podem se envolver com os pacientes por meio de aplicativos, dispositivos de saúde e fitness e comunidades online, por exemplo. Pense apenas na Apple, com o Health Kit no iPhone e Apple Watch!E eles são capazes de coletar petabytes de dados dessas e de outras fontes, como registros médicos eletrônicos e reivindicações de seguro, capturando informações valiosas.Por exemplo, a plataforma IBM Watson Health – recentemente no centro de uma parceria com a Apple e sua plataforma de dados de sensor de saúde HealthKit – está usando análises avançadas e recursos de processamento de linguagem natural para fornecer suporte a decisões clínicas. A oportunidade está aí: quem primeiro entre as empresas farmacêuticas colaborar com esses players ao montar uma cultura analítica e de big data, irá ganhar uma vantagem competitiva importante. A Sanofi deu um passo nessa direção ao começar uma parceria em 2017 com a Evidation Health, uma empresa de “behavioral analytics” que através da sua plataforma Real Life Study, coleta dados sobre pacientes através apps no Smartphone e wearables. Na Boehringer Ingelheim, as decisões de negócio são baseadas em consumer & patient centricity, sempre pensando em como oferecer uma melhor experiencia para o paciente, diz o Marc Hasson, Country Managing Director na BI. “Dentro desse processo de transformação digital, é importante termos um novo olhar para a jornada do cliente”, conclui ele. Os lançamentos e as iterações do médico dentro das plataformas deles tem sido medidos e gerado dados. “Esses dados trazem insights e isso alimenta as áreas de marketing e venda, entre outros”, nos conta Thales Mussi, Digital Transformation Consultant na Boheringer Ingelheim. “A empresa vem se posicionando provendo serviços para o cliente, onde os dispositivos e as plataformas consegue trazer insumos e dados para tomada de decisão e para a personalização da experiência de venda”, conclui o Thales. 

De forma geral, a transformação digital está permitindo às empresas farmacêuticas gerar valor para o paciente além do medicamento, como por exemplo fornecendo tratamento personalizado e em tempo real através sensores e serviços digitais. Muitos medicamentos irão fazer parte de um ecossistema digital que monitora constantemente as condições do paciente e fornece feedback em tempo real. O resultado disso? Maior efetividade pois irá personalizar a terapia baseada nas necessidades clínicas e de estilo de vida do paciente, e permitir um monitoramento remoto por parte dos profissionais de saúde. Já existem muitos sensores e aparelhos de IoT no mercado que podem medir os sinais biofísicos do paciente: desde wearables como Apple Watch, FitBit e afins, passando por chips embaixo da pele que também permitem a injeção de remédios onde é preciso, até um que conheço bem por ter trabalhado na L’Oréal: o My Skin Track UV, da La Roche-Posay – um sensor combinado a um aplicativo de celular que monitora os níveis de exposição da pele aos raios ultravioleta. A Pfizer e a IBM também lançaram uma parceria em 2016 para desenvolver uma tecnologia IoT para rastrear a eficácia dos medicamentos de Parkinson e fazer os ajustes posológicos necessários em tempo real, melhorando a comunicação médico-paciente: eles chegaram até a criar uma casa de simulação de paciente com Parkinson repleta de sensores em tudo, desde as alças e os armários da geladeira até as portas e as camas – que detectam até a menor variação nos movimentos de um paciente. 

WellDoc por exemplo lançou BlueStar, o primeiro aplicativo Mobile aprovado pela FDA para gerenciar diabete de tipo 2, assim como AliveCor desenvolveu um eletrocardiograma que funciona no Smartphone. Obviamente o medicamento continuará sendo ao centro, mas o tratamento será a cada vez mais personalizado e mais preciso, em base as necessidades de cada paciente. Ao juntar IoT com o primeiro pilar, de Big Data, será possível predizer como pacientes irão reagir a tratamentos e inclusive rodar testes clínicos de novos medicamentos de forma mais ágil. A personalização de medicamentos seguindo a composição genética do indivíduo faz parte da iniciativa da medicina de precisão (ou personalizada), e grande parte disso foi possibilitada por avanços no entendimento do microbioma humano, especialmente na maneira como a flora intestinal humana interage com os produtos farmacêuticos. Ou seja, no futuro não será importante apenas produzir o medicamento. Mas será mais importante ainda fornecer aos pacientes e pessoas soluções abrangentes e personalizadas de produtos e serviços de saúde. E a transformação digital está aqui para justamente permitir isso.

2. Metodologias Ágeis, Indústria 4.0 e Automação:
As supply chains da indústria farmacêutica têm sido caracterizadas por longo lead-time (em média um ano) e baixo giro de estoque (250 dias). O mesmo é valido para o processo de R&D: o tempo médio entre descoberta da molécula e lançamento do produto é de 12 anos, e não tem variado muito ao longo do tempo, assim como o investimento ao longo desse ciclo tem sido na casa de USD 3 a 5 bilhões.
Mas existem enormes possibilidades de melhora seja na area de supply chain, seja na área de R&D graças a metodologias ágeis e automação: um recente estudo da McKinsey estima que empresas que digitalizarem de forma agressiva suas supply chain possam esperar um crescimento anual de 3.2% de EBIT e de 2.3% em vendas: esse impacto é graças a um aumento de seja a eficiência seja a efetividade do planejamento de ciclos de S&OP e tomada de decisão através monitoramento em tempo real de performance com IoT, e cloud computing big data vindo de várias fontes (como por exemplo ERPs, etc) trazendo uma nova onda de automação. Isso leva ao conceito mais amplo de Indústria 4.0.
No Brasil, o Aché Laboratórios já atingiu 100% de automação planta de medicamentos líquidos de Guarulhos (SP) 100% automatizada, assim como na nova fábrica de Suape (PE) a aquisição de equipamentos de tecnologia embarcada 100% online e a utilização de sistemas que irão conectar as informações no processo produtivo, como o Sistema MES (Manufacturing Execution Systems), a utilização dos AGVs (Automated Guided Vehicles) – veículos robotizados guiados automaticamente – e a construção de um armazém vertical robotizado farão que esta nova fábrica já nasça operando dentro do conceito de Indústria 4.0. A Camila Crispiniano, Head of Marketing B2C do Aché Laboratórios, nos explicou a importância da transformação digital na companhia: “O Aché através de seu programa de pacientes, da fábrica 4.0, exploração e descoberta de novas drogas com utilização de Inteligência Artificial, já demonstrou que a transformação digital dentro do segmento farmacêutico, não só é possível, como também é agora uma necessidade”, comentou ela.
A nível internacional, a Teva Pharmaceuticals Industries começou em 2019 a trabalhar em uma parceria com a Insilico Biotechnology, onde a tecnologia da Insilico para biofabricação preditiva será aplicada aos processos de fabricação da Teva. Isso permitirá processos de produção mais eficientes. A fabricação modular também é importante na Indústria 4.0: a Pfizer é líder em fabricação modular. Para desenvolver recursos de fabricação modular, ele estabeleceu unidades de fabricação portáteis, contínuas, em miniatura e modulares (PCCM) na Bélgica, Alemanha e Texas (EUA). 9 pods modulares são enviados para um armazém, onde podem ser montados para funcionar como uma unidade de produção completa, reduzindo muito os custos e tempos de montagem de uma planta.
Na area de R&D, um estudo recente da PwC também aponta a reduções de ciclos de Pesquisa e Desenvolvimento de pelo menos 5 anos, com uma redução do investimento necessário de 60%, através a adoção de metodologias ágeis. Incrível, não é?
Também na parte de testes clínicos de novos medicamentos, podem se obter enormes ganhos em eficiência e time-to-market a partir da automação: desde recrutamento online e monitoramento remoto, será a cada vez mais possível fazer testes clínicos no “mundo real”, assim os participantes podem continuar com suas vidas de forma mais normal. Também, isso irá render os efeitos do medicamento mais claro pois os participantes irão ter umas condições normais mais semelhantes às de pacientes normais.O aumento da conectividade e automação nos processos de gerenciamento de testes também permitirá abordagens avançadas de design e monitoramento dos testes clínicos. A Eli Lilly está avançando na implementação dessas tecnologias para sua organização de fabricação farmacêutica: ao centro disso estão processos como Realidade Aumentada e “digital twins” (gêmeos digitais) que permitem que modificações e melhorias sejam testadas nas representações digitais de sistemas ou processos físicos. A revista Pharmaceutical Technology discutiu o processo com Jim Weber, advisor da Eli Lilly, que disse: “A planta digital pode acelerar as melhorias. Por exemplo, podemos reduzir os riscos ergonômicos por meio robôs levantando caixas, e garantir a qualidade por meio de análises em tempo real, em vez de testes posteriores. Essas tecnologias também aumentam a eficiência em termos de custos”.
O Agile, ainda mais do que uma metodologia, é um mindset. A Roche tem pivotado em 2018 para um mindset agile e escalado ela dentro da organização: em uma entrevista para a McKinsey, o Frank Duff, senior vice president, e Malte Schutz, vice president, explicaram que o que levou a Roche para o agile foi uma combinação de fatores internos e externos. “Internamente, nosso pessoal descreve uma complexidade excessiva em processos, sistemas e governança, o que dificulta a realização do trabalho. Isso afeta negativamente o envolvimento dos funcionários e os deixa afastados da missão que os trouxe para a empresa. As abordagens convencionais para resolver isso têm sido insuficientes para mover a agulha. Externamente, a digitalização na área da saúde e os insights associados ao big data e advanced analytics nos obrigam a evoluir. Os ciclos de R&D estão se acelerando e a concorrência vindo seja dos players tradicionais seja dos dos novos players tecnológicos está aumentando – assim como as expectativas dos pacientes, reguladores e outras partes interessadas. Precisamos pensar de maneira muito diferente sobre a maneira como desenvolvemos nossos medicamentos”, disseram. Será que não tem mais como ficar por fora da revolução Agile?

3. Omnichannel para Informação, Marketing e Vendas
Desde sempre, as empresas farmacêuticas tiveram um alto grau de controle na geração e a disseminação de informações sobre seus produtos. Porém, as tecnologias digitais enfraqueceram esse controle, abrindo uma variedade de novos canais de informação independentes: desde comunidades online para compartilhar e discutir as experiências de pacientes, aplicativos e sensores para monitorar o impacto das terapias no dia a dia, até como reviews e comparações de medicamentos – tudo graças a Internet. O risco disso é que essa acessibilidade de informação pode ter efeitos nocivos: recentemente li um artigo no site da Medley do título “Porque o Google não deve ser o seu consultório médico”, onde argumentam que ao fazer isso podemos fazer suposições erradas, podemos nos sentir pior e ainda deixar informações confidenciais no meio do caminho. 1 de 20 pesquisas no Google são relacionadas a saúde, e por isso as empresas farmacêuticas têm uma enorme responsabilidade de educar e instruir o mercado e o paciente com as informações corretas. Ao mesmo tempo, o crescimento das fake news tem alavancado movimentos como o contra as vacinas, baseado em desinformação e perigoso ainda mais em um contexto de vacina contra o Covid-19. Em um mundo de acesso ilimitado à informação e de múltiplos canais de comunicação, então, as empresas farmacêuticas terão que desenvolver os recursos para antecipar ou reagir rapidamente a essas novas fontes de evidência e permanecer a principal fonte de autoridade no desempenho de seus produtos em um formato Omnichannel, pois em uma pesquisa mais de 85% dos pacientes disseram estar confiantes em sua capacidade de assumir a responsabilidade por sua saúde e sabiam como acessar recursos on-line para ajudá-los a fazê-lo. Isso é bom por um lado, mas perigoso pelo outro.
Novas tecnologias como a de reconhecimento de voz tem sido utilizado pelo Aché Laboratórios. A Camila Crispiniano, Head of Marketing B2C do Aché Laboratórios. nos conta que “para permitir que os pacientes tivessem acesso facilitado aos descontos, em 26 mil farmácias de todo Brasil, foi implementado o reconhecimento de voz na URA de atendimento aos mais de 14 milhões de pacientes do programa Cuidados Pela Vida”.
Também, tecnologias de engajamento digital abrem um mundo totalmente novo para marketing, troca de informações, recrutamento para testes e vendas. A omnicanalidade acoplada com Inteligência Artificial pode reformular totalmente a forma de fazer negócio, introduzindo, entre outros, elementos de personalização em larga escala e maior assertividade na venda: o Alan Campos, Chief Digital Officer da Novartis no Brasil, comentou para mim que “a maior oportunidade da Inteligência Artificial é na possibilidade de repensar os modelos de negócio atual, conquistando o relacionamento com médicos e pacientes em canais e plataformas digitais”. Para encurtar a jornada dos pacientes, a Novartis, focando no propósito de melhorar a vida das pessoas reimaginando a medicina, adotou iniciativas inovadoras como campanhas de inbound marketing para esclarecer as pessoas sobre as doenças, sintomas e orientações para procurar um médico. “Fomentamos ainda o uso de alguns aplicativos, alguns desenvolvidos globalmente e alguns de parceiros locais que nos ajudam a melhorar o tratamento dos pacientes (Digital Therapeutics)”.

Os representantes de vendas farmacêuticas, as equipes de atendimento ao paciente podem informar os pacientes, médicos e prestadores de cuidados por meio de telefones celulares, Internet, aplicativos ou mídias sociais. Os pacientes já estão começando a usar portais para armazenar seus registros médicos e a se comunicar com seus médicos a distância: o atendimento virtual a qualquer hora e em qualquer lugar se tornará cada vez mais comum. A Boehringer Ingelheim, que já vinha trabalhando de forma pioneira a telemedicina, se encontrou bem posicionada no momento em que ela foi liberada no Brasil sob o cenário do Covid-19. O Marc Hasson, Country Managing Director Brazil da Boehringer Ingelheim, nos conta que “Enquanto isso era novidade para muitos, a BI estava preparada para apoiar a comunidade médica no uso da ferramenta, no diálogo com os pacientes, e em como fazer as prescrições eletrônicas”.
A Camila Crispiniano, do Aché Laboratórios, nos conta eles permitem através do Conecta, que o contato com o médico se transformasse temporariamente em interações ainda mais digitais, assim como diversos canais de relacionamento médico não presenciais foram intensificados durante a pandemia,como as sessões gratuitas de webinar para médicos. “Os médicos podem solicitar visitas online pelo site do Aché www.ache.com.br e lá acessar conteúdos exclusivos pelo portal ACHE.doc”, conclui a Camila. Também a Merz lançou a plataforma “Merz com você” onde é disponibilizada uma agenda semanal de conteúdos para preparar os médicos sobre temas científicos, de negócios e bem estart. A Marcela Bhering, Digital & Innovation Manager – LatAm da Merz. nos conta: “O COVID-19 realmente acelerou nossa transformação digital, e acreditamos que nesse momento a atualização científica segue sendo importante mas precisamos usar a tecnologia para levar outros conteúdos que ajudem nossos clientes a passaram por essa fase com mais qualidade de vida”.
Também o Portal Telemedicina está fazendo um trabalho incrível ao conectar os melhores médicos especialistas do Brasil a clínicas e hospitais, mesmo aqueles em locais remotos, laudando exames à distância em poucos minutos e por um valor acessível. Em particular, apresenta uma solução inovadora para a detecção do Covid-19. O Rafael Figueiroa, CEO e cofundador do Portal Telemedicina nos conta que “Clínicas e laboratórios parceiros do Portal Telemedicina agora contam o algoritmo de detecção de Covid-19 em exames de imagem que desenvolvemos em parceria com o Google. O diagnóstico, que é complementar aos exames realizados atualmente (PCR e teste rápido), compara as imagens de raio-x ou tomografia de um paciente com um banco de dados de exames de pessoas que testaram positivo para o novo coronavírus.”
Aliás, essa crise pode servir de ponto de flexão para a Telemedicina, que é uma tendência que cresce no Brasil, e que segundo um recente estudo da KPMG sobre o impacto da crise em setores da economia, a Telemedicina é um dos segmentos que mais irá crescer graças a ela.
Todas essas interações oferecem às empresas farmacêuticas a oportunidade de obter valor. Para realizá-lo, eles terão que desenvolver recursos avançados de marketing e engajamento digital semelhantes aos implantados pelos principais varejistas, companhias aéreas, empresas de telecomunicações e empresas de bens de consumo, quase pensando de forma B2C, e aproveitando a omnicanalidade.

4. Inovação Aberta, Start-ups e Mindset Digital: as barreiras para entrada no mundo farmacêutico tem sido tradicionalmente bastante altas, mas a cada vez mais conseguimos ver exemplos de inovação aberta e colaborativa entre os big players, e Universidades e startups que estão fazendo um excelente trabalho nesse mundo. As premissas da inovação aberta são 5: que por mais grande seja a empresa, muitos ótimos profissionais estão fora dela, que independente do setor de P&D da empresa, fontes externas de tecnologia podem agregar valor ao negócio, que a empresa não precisa ser detentora da tecnologia para poder comercializá-la, que um bom modelo de negócio é mais importante do que ser o primeiro a inovar, e que em determinadas situações, é mais vantajoso licenciar uma tecnologia para terceiros do que explorá-la diretamente sem uma estrutura comercial ou um modelo de negócio adequado. A partir dessas premissas, estamos vendo a cada vez mais inovação aberta no mercado farmacêutico.
No Brasil, a Novartis fechou parcerias com a Eretz, incubadora de startups do Hospital Albert Einstein.”Temos a ambição de abrirmos um Hub de Inovação em breve para estreitarmos ainda mais o relacionamento e parcerias com o ecossistema de Health techs”, reforça o Alan Campos, Chief Digital Officer da Novartis. A Merz também vem atuando em parceria com 3 start-ups, nos conta a Marcela Bhering, Assunção, Digital Marketing & Innovation Lead na Merz: a Hoobox de AI, a Medroom de AR e Moblee de tecnologia para eventos.
Outro exemplo é a parceria começada em 2018 entre o Centro de Química Medicinal de Inovação Aberta (CQMED) da Unicamp e os laboratórios Aché e Eurofarma para pesquisa de novas moléculas, visando ao desenvolvimento de medicamentos anti-infecciosos e de combate ao câncer.
Outro formato ainda é de hackathons: ano passado a Prati-Donaduzzi lançou um desafio aos participantes da 2ª edição do Pig Data, maior evento na área de tecnologia e inovação no oeste do Paraná, no Biopark – Parque Científico e Tecnológico de Biociências, com sede em Toledo, para apresentar soluções de melhoria do mapeamento, relacionamento e atendimento de oito produtos OTCs (livres de prescrição) do portfólio da indústria.
Em uma outra área, algumas startups como Science 37, empresa financiada pela Sanofi, Novartis, Google e Amgen, e a Transparency Life Science estão transformando os testes clínicos através modelos virtuais em nuvem e Mobile. A Sanofi se associou em 2017 com a Science 37 em particular para resolver esse gargalo na parte dos testes clínicos: a Heather Bell, SVP Digital da Sanofi, conta que 70% dos testes clínicos têm atrasos devido a desafios na parte do recrutamento.
Ou seja, startups podem ajudar muito as grandes empresas mas ao mesmo tempo podem representar uma ameaça ou um substituto: cabe às grandes empresas decidir como encarar a inovação disruptiva que nasce das start-ups. E não são poucas não: apenas no Brasil, o excelente Fischer Report 2020 sobre o ecossistema de HealthTech no Brasil mapeou as start-ups mapeadas na área de Farmacêutico e Diagnostico: Oncotag, Celer Biotecnologia, Optix, Mendelics, Portal do Medico, Pluricell, SafeTest Diagnosticos, Multifarmas, Pickcells, RemedioCerto, Tovem Biotech, Onkos, Farma Express, Progenes, Myleus, tismoo, Manipulaê e NeoProspecta. Na area de Wearables e IoT, temos as seguintes start-ups mapeadas: NeuroBots, Tecnosenior, NeuroUp, LinCare, ClickHelp, Senfio, Epistemic e Precision Vitals. Na area de AI e Big Data aplicadas ao setor de saúde temos: Youper, Nuclearis, Aquarela, Semantix, Nindoo, Shosp, Epitrack, PredictVision, Refineria de Dados, Cycor, 2iM, Hoobox, HFocus.
Ou seja, oportunidade de impulsionar a inovação aberta é o que não falta!
Por último nessa área, não podemos deixar por fora a mudança de mindset. A Merz tem trabalhado essa parte de mindset digital: “Temos trabalhado a capacitação de nossas equipes de vendas e back office através de parcerias com a Digital House para melhorar a habilidade de todos sobre o uso de tecnologias e novos modelos de negócios”, nos diz a Marcela Bhering, Digital & Innovation Manager – LatAm da Merz. “Estamos vendo a cada vez mais empresas trabalhar com fornecedores inovadores que porém não tem experiência com o mercado de farma. Isso era difícil de pensar até pouco tempo atrás”, diz o Tiago Rocha, da Sandoz. Ele até ressalta que a própria contratação dele é um exemplo de uma maior abertura ao digital por parte da indústria, assim como o exemplo do Alan Campos, CDO da Novartis vindo da indústria de telecomunicações. Ele mesmo comentou para este artigo: “Acredito que a transformação cultural e a transformação digital caminham juntas. No caso da Novartis no Brasil, a criação da diretoria de Digital & Strategy é um exemplo da abertura da companhia nesta direção. Desde o ano passado o time mais do que dobrou de tamanho: trouxemos profissionais de diversas indústrias com experiências em User Experience, Product Management e Marketing Digital. Implementamos o conceito de Agile Brand Teams para os próximos lançamentos, inspirados no modelo Spotify e Metodologias ágeis. Deixamos de nos apaixonar pelas soluções e passamos a focar nos problemas com atuação baseada na criação de hipóteses, ideação de produtos e times multidisciplinares”. De alguma forma, nisso está o resumo do artigo! E mais iniciativas de 2019: “Fizemos no ano passado um treinamento em massa para mais de 400 colaboradores sobre cultura digital, metodologias ágeis, User experience, data analytics, data science e marketing digital. Digital para nós, mais do que uma coisa, é um jeito diferente de fazer as coisas e isso não é responsabilidade da área de Digital. E, desde então, diversas áreas da companhia já abraçaram a transformação e criaram convenções 100% Digitais, eventos 100% virtuais e fomentaram parcerias com grandes startups globais, que estão por vir em breve”. Aguardamos ansiosamente!

Para encerrar, um estudo da Deloitte sobre o mercado Australiano, chamado “Digital Disruption: Short Fuse, Big Bang” analisa a curva de aceleração da transformação digital sob 2 lentes: o tamanho da disrupção e a iminência da transformação. E o que é interessante é que a indústria farmacêutica e de saúde está no quadrante “Long Fuse, Big Bang”, ou seja ainda vai demorar um pouco pra chegar, mas quando chegar…essa transformação vai vir com muita força e começar um novo mundo em farma como o Big Bang fez.
Obviamente as peculiaridades do mercado Brasileiro são diferentes, mas podemos constatar que certamente o mercado não se transformou ainda da forma que outros setores o fizeram, mas justamente está aí a oportunidade de quem se movimentar primeiro e com maior força. O Thales Mussi, Digital Transformation Consultant na Boheringer Ingelheim, olhou para o mercado financeiro para buscar referências estratégicas: “Com o crescimento das fintechs, os grandes bancos tiveram que se reinventar e o estão fazendo (com diferentes graus de sucesso), como por exemplo o Bradesco com o next, e outras. O mesmo é preciso no mercado farmacêutico”.

A reflexão que fica é: empresas em busca de soluções tecnológicas para a transformação digital no setor farmacêutico estão apenas tentando se antecipar à concorrência ou operam no timing que o cliente e o consumidor pede? Porque são duas coisas diferentes.
Pois é evidente que existem enormes possibilidades ao longo dessas 4 áreas de transformação, mas isso é para já. Não podemos mais dizer que agora é hora de olhar com calma para essa questão, ou de considerarmos algo “do futuro”.
A pergunta é: você está mudando na mesma rapidez com que o mundo está mudando?
Conto com sua resposta para continuarmos o papo.

Ciao,
EU SOU O ANDREA

EMPREENDEDOR. PALESTRANTE. NÔMADE. CRIADOR DE CONTEUDO. INVESTIDOR. MINIMALISTA.

Aqui vai encontrar algumas idéias, reflexões e conteúdos sobre os temas que mais me apaixonam.

Desde como desenhar seu próprio estilo de vida, até como ter sucesso no meio da Transformação Digital, tudo é voltado a gerar provocações intelectuais que incentivem MUDANÇA em nossas vidas.

 

Saiba mais

Para contatos comerciais, elogios e reclamações, ou apenas para trocar ideia comigo! Escreva sua mensagem abaixo 👇

@aiorio_br