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Oportunidades de Inovação para o Cooperativismo no pós-crise.

30 de julho, 2020

Há poucas semanas da publicação desse artigo, em 4 de julho, foi comemorado o Dia do Cooperativisimo. Em 2020 a data, para mim, teve duplo significado. Primeiro, tive a oportunidade de palestrar no CoopTalks, o maior evento online de palestras sobre o cooperativismo do mundo, organizado pela revista MundoCoop. Em segundo lugar, esse é “o ano da crise da Covid-19”, e a data comemorativa me fez refletir muito sobre o papel do Cooperativismo no pós-crise, principalmente em relação às oportunidades inovadoras que podem surgir para o setor.

 No Brasil, segundo especialistas, a crise da Covid-19 deve resultar em uma queda do PIB em torno de 6%. A ONU, por sua vez, prevê que a queda no comércio internacional fique na casa do 20%, principalmente devido ao fechamento de fronteiras e um novo padrão de priorização da produção local.

Mas sabe de uma coisa? Mesmo diante desses números, estou confiante em afirmar que o papel do Cooperativismo será a cada vez maior, já que ele é importantíssimo para o que vai ocorrer na saída da crise. 

 Para justificar minha afirmação, temos que levar em conta o papel dos 7 ramos do Cooperativismo (que segundo a OCB são agropecuária, bens de consumo, crédito, infraestrutura, saúde, trabalho, produção de bens e serviços, e transporte).

 Pense bem: alguns desses setores (eu arrisco dizer que todos) foram fundamentais durante a crise – e vão figurar como o motor da retomada pós-crise! Os melhores sinais serão percebidos, obviamente, no caso da saúde, onde cooperativas como a Unimed estão desempenhando um papel fundamental no combate ao coronavírus, e no setor financeiro, Cooperativas como Sicredi, Sicoob, Únilos e outras cooperativas vão liderar a retomada. Eduardo Ferrari, Presidente do Conselho de Administração da Únilos, em particular nos conta que: “as práticas foram fortemente direcionadas para aquilo que nosso cooperado mais precisava neste momento: apoio para ultrapassar este difícil momento. Assim, enquanto o mercado dava outras sinalizações, reduzir taxas de juros e revisar limites de crédito foram ações imediatas para levar ao cooperado novas alternativas. Na sequência, o desenvolvimento de novas soluções de crédito com postergamentos de parcelas trouxeram mais fôlego à nossa economia regional”, nos comentou o Eduardo. 

 Várias cooperativas agropecuárias, que cuidam do fornecimento de alimentos à população brasileira (ainda mais em um momento de queda do comércio exterior) se destacaram bastante em 2020, como a Coopercitrus, liderada pelo Fernando Degobbi, que implementou uma Feira Virtual em 3D, e têm tudo para continuar nesse ritmo pelos anos que virão. A Sabrina Calixto, Gerente de Estratégia de Cooperativas, da Bayer Crop Science, nos conta que “como crise é a especialidade das Cooperativas, é neste momento que elas se reinventam e surgem grandes oportunidades para os associados”. Em particular ela aponta algumas tendências como uma uma informação de qualidade mais acessível e online (com a cada vez mais palestras, treinamentos e fóruns online…e eu, posso confirmar por ter participado de uma evento da Bayer ao palestrar para os líderes das maiores cooperativas de agro do país), e um investimento forte em tecnologia e prestação de serviço. “Um exemplo é a Coopercitrus , que já acessa mais de 2 milhões de hectares de seus cooperados como Climate Field View, o que tem auxiliado a entender melhor o comportamento das culturas e proporcionado melhores informações na tomada de decisão dos agricultores”, ressalta a Sabrina Calixto. “É a inovação desembarcando nas propriedades rurais” disse Fernando Degobbi, diretor Presidente da Coopercitrus, em uma palestra.

 

Potenciais áreas de inovação no cooperativismo

Para pensar nas potenciais inovações do setor, vamos resgatar a história do cooperativismo. O conceito nasceu justamente em um momento de crise, em Rochdale, na Inglaterra,  em 1844. Seu nome é sinônimo de “colaboração”, e não à toa.

 O historiador Yuval Harari (autor de Sapiens), aponta a colaboração como o grande fator-chave para sair da crise, em inúmeros contextos – e, nesse cenário, o modelo do cooperativismo nunca fez tanto sentido quanto agora!

 Existem oportunidades inovadoras para que as cooperativas se transformem e consigam se reposicionar melhor no cenário pós-crise, e isso nos traz mais otimismo ainda. Esse otimismo é também decorrente do processo de transformação digital e cultural nas Cooperativas, que foi acelerado pela pandemia. Aos olhos do Gustavo Mendes Nascimento, co-fundador do Coonecta, a crise atual não deixou mais escolha às Cooperativas que estavam resistentes ao digital: “Essas Cooperativas perceberam que você ser digital não é você se afastar do cooperado, mas pelo contrário: é você ter mais um canal para estar próximo dele”, nos contou o Gustavo. “Inclusive, as Cooperativas que já tinha uma maturidade melhor, conseguiu ficar mais próxima nesse momento de pandemia”, acrescentou. Além de transformação digital, o Gustavo notou uma flexibilização de estruturas hierárquicas e uma maior busca de agilidade. 

A regra é clara: quem souber aproveitar essas oportunidades (que, no final do dia, são reflexos de novos comportamentos do consumidor e do mercado), vai se posicionar melhor no cenário que está por vir.

 E, afinal, o que está por vir?

 Vamos lá:

Cooperativismo de plataforma 

Um dos modelos de negócio que mais vem crescendo nos últimos tempos diz respeito aos serviços em plataforma, como Uber, iFood, Airbnb e daí por diante. O problema é que, frequentemente, essas plataformas penalizam os trabalhadores, como foi notado pelo papel dos entregadores nos primeiros meses de 2020. Se você não sabe do que estou falando, a Coonecta fez um excelente artigo sobre o tema. Em resumo, até “greve” os entregadores – que são considerados autônomos pelas plataformas – fizeram, para trazer luz aos problemas que enfrentem, com ou sem isolamento social.

 Por isso, é cada vez mais interessante explorar o Cooperativismo de Plataforma, cujo funcionamento engloba uma plataforma digital inspirada pelos princípios do cooperativismo. Nesse modelo, a prioridade é justamente zelar pelos trabalhadores que a constroem. “No cooperativismo de plataformas, por exemplo, podem ser oferecidas plataformas com propriedade compartilhada, que já desde o ponto de partida são mais justas e mais igualitárias”, nos comentou o Gustavo Mendes Nascimento, co-fundador do Coonecta. 

 Existem alguns exemplos no Brasil, como o VouBem, um app de motoristas criado pela CooperDinâmica, em Maringá (PR), motivada pela insatisfação dos motoristas com as taxas cobradas pela Uber. Outra iniciativa interessante é a CleanClic, do empreendedor Vitor Romero, que conecta empresas de energia e promove a gestão de unidades consumidoras para proporcionar menor custo a pessoas físicas e jurídicas. Essa última foi desenvolvida dentro do Sicoob-ES. 

 Um dos motivos principais pelo qual os modelos de cooperativismo de plataforma irão crescer substancialmente daqui para frente é o aumento na taxa de desemprego no país, impulsionada em 2020 pela crise do Covid-19. Só em maio ela atingiu 12.9% – e estima-se que continue em uma crescente nos próximos meses. 

No agronegócio também, vemos também plataformas de terceiros sendo a cada vez mais utilizados pelas Cooperativas para escalar suas negociações através de canais digitais “Um exemplo é o Marketplace Orbia, plataforma que conta com mais de 160.000 agricultores cadastrados e oferece uma infinidade de produtos e serviços. Em uma campanha online eles movimentaram mais de R$10 milhões em insumos agrícolas em apenas 3 horas”, comentou a Sabrina Calixto da Bayer para esse artigo. Tenho tido a sorte de palestrar junto com o Ivan Moreno, CEO da Orbia, e posso garantir o quão inovador é esse modelo para as cooperativas. 

Proximidade “Digital”

Um dos novos comportamentos consumeristas notado após o isolamento social e fechamento de vários ramos comerciais é a preocupação pela origem, qualidade e cuidados sanitários dos alimentos – e não só no Brasil, mas no mundo inteiro. 

 Agora, os consumidores priorizam os negócios locais, comprando produtos e serviços de comunidades próximas e ajudando na continuidade dos negócios locais, bem como na manutenção dos empregos gerados por esses empreendimentos. Isso impacta rápida e diretamente na realidade em que esse consumidor vive. E afinal, nesse sentido o digital aproxima. De fato, o digital aproxima também na gestão das cooperativas, e não o contrário. “Quebrar a barreira do relacionamento presencial vem sendo o maior desafio das cooperativas, porém as que têm se arriscado em feiras, campanhas e encontros virtuais tem percebido que o digital não é um inimigo do relacionamento conquistado ao longo dos anos, muito pelo contrário: garante uma maior proximidade, agilidade e comunicação com seus associados, e de quebra, uma maneira de prospectar novos cooperados”, comentou para o artigo a Sabrina Calixto da Bayer.

 Durante 2020 vimos o fortalecimento do senso de comunidade e proximidade que o Cooperativismo sempre teve, não só no agronegócio, mas, por exemplo, também no setor financeiro: mesmo contribuindo com cerca de 4% das operações de crédito do país, o cooperativismo de crédito tem uma capilaridade gigantesca, com uma presença física, no território nacional.

 Essa atuação, que já é incrível, precisa ser complementada com a forte presença digital. Um exemplo positivo é o aplicativo da Sicoob, certamente um dos melhores apps financeiros no mercado. Iniciativas digitais como essa são essenciais, já que, para evitar a exposição aos riscos gerados pelo coronavírus, as pessoas temem se deslocar a locais físicos, principalmente para realizar tarefas que poderiam ser tratadas pelo ambiente digital. Consequentemente, reforçar a presença nesse ambiente, ainda que localizada, é uma forma de inspirar segurança e praticidade a todos os cooperados. 

A Únilos também se acionou rapidamente para aproveitar o digital para se aproximar dos cooperados. O Eduardo Ferrari, Presidente do Conselho de Administração da Únilos, nos contou que entre suas principais iniciativas após o lockdown, teve “o fortalecimento dos ambientes virtuais de negociação entre cooperados (marketplaces), seguindo uma prática frequente do cooperativismo que permite aumento de negócios por aproximação de seus cooperados”. Um exemplo de marketplace da Únilos foi o lançamento, no dia 20 de Abril, do Ailos Aproxima, uma plataforma online para ajudar a impulsionar os empreendedores locais com exposição de seus produtos e serviços, sendo uma grande vitrine de produtos e serviços locais, aproximando quem quer comprar e quem quer vender, ajudando na retomada dos cooperados!

Segundo o que o Cergio Tecchio, Presidente do Sistema OCEB, pelo que ele tem acompanhado nas cooperativas baianas,  “elas estão buscando novas formas de se relacionar com seus cooperados e com o mercado, buscando sempre atender a necessidade de seus integrantes e do seu objecto social. A forma que isto se dará e inovando em sua forma operacional”, disse ele. “A pandemia veio derrubar muitos mitos e resistência no cooperativismo”, acrescenta ele, que também quando ouve das cooperativas  a resposta “Sempre foi assim”, costuma responder: “Foi. Agora inove e faça diferente”.

 

Segurança e saúde

Não podemos deixar de ressaltar que, obviamente, uma das prioridades das cooperativas se tornou garantir, de imediato, meios eficientes de segurança à saúde dos cooperados. Isso se deu através iniciativas de educação e de orientações para a prevenção ao novo coronavírus nas propriedades de produtores rurais cooperados, no caso do agronegócio, ou nas filiais das cooperativas de crédito e outras sedes baseadas no meio urbano. 

 No campo, medidas de proteção trabalhadores rurais são ensinadas para garantir segurança no ambiente de trabalho, considerando as características da atividade agrícola, pecuária e extrativa, por exemplo. 

 Mas, nesse sentido, quero destacar as iniciativas da Unimed, a maior cooperativa de saúde do Brasil. Suas ações foram extraordinárias e de rápida implementação, seja para assegurar os cooperados ou os pacientes conveniados a seus serviços.

 Na Unimed Curitiba, por exemplo, a Unimed Laboratório realiza testes para a COVID-19 em sistema drive-thru, para que a possibilidade de contaminação seja menor do que na ida a um hospital. No drive-thru, o paciente permanece no veículo e tem o mínimo contato com o assistente de saúde designado a realizar o teste.

Em outros estados a cooperativa acelerou trâmites para a validação da telemedicina e dos receituários digitais para medicamentos controlados e de tratamento crônico, para evitar que médicos e pacientes saiam de casa. Em Minas Gerais, os conveniados receberam ligações – automáticas ou pessoais – da Unimed para que relatassem seu estado de saúde no momento da ligação. Caso os sintomas fossem análogos aos da gripe ou Covid-19, o próprio sistema sugeria o atendimento online ou o presencial de urgência. 

 

Por onde seguir?

A linha de raciocínio deve ser a seguinte: se o cliente final muda seu comportamento de consumo (e, acredite, isso já está acontecendo), os cooperados terão de se adaptar, fazendo com que os cooperados se adaptem, levando, fatalmente, às mudanças necessárias dentro das cooperativas. Sem pensar por esse viés, corre-se o risco de ficar para trás ou, até mesmo, perder a relevância. 

 Não é isso que queremos ou, até, podemos fazer, já que o cooperativismo é braço forte da economia brasileira e mundial. Portanto, só nos resta abraçar as mudanças e estabelecer os critérios de padronização para as cooperativas de cada setor. Nesse objetivo, cada uma vai descobrir seu próprio caminho, mas nada impede que discutamos juntos as inovações que podem melhorar toda a rede. 

Olhe só a visão do Luiz Ajita, Presidente do Conselho de Administração do Sicoob Metropolitano. Ele acredita que “A grande inovação para as cooperativas seria a construção de um ecossistema cooperativo (de todos os ramos e sistemas) com um Super aplicativo , contemplando social, negócios e financeiro – onde os cooperadores poderão oferecer e adquirir produtos e serviços, interagir socialmente, produzir e assistir a live streaming , comprar seguros e planos de saúde, direcionar doações para projetos sociais, culturais e de meio ambiente, fazer intermediações financeiras…tudo num único Super App!”. Sensacional essa visão integrada do cooperativismo!

Para finalizar, a Carolina Mussolini, Assessora de Comunicação e Marketing do SICREDI, nos deixou uma reflexão muito interessante para esse artigo. Ela comentou que “de fato, o próprio cooperativismo surgiu com a junção de 28 pessoas em que viram no associativismo como uma forma de melhorar a situação pela qual viviam. Diante da crise que vivemos, com a pandemia do Coronavírus, vemos nas redes sociais os grandes movimentos das pessoas em prol do pequeno empreendedor, fomentando a compra nos estabelecimentos do bairro, de microempreendedores e de pequenos comércios”. O Sicredi lançou uma campanha que diz justamente isso, #Eucoopero com a economia local. “Se pensarmos nos princípios do cooperativismo, poderíamos considerar como quase uma forma de “intercooperação”, acrescentou ela. 

Mas existe um obstáculo ao Cooperativismo, que o digital pode vir para resolver. Qual? o professor Márcio Port explica através de uma reflexão: “Quem é o grande concorrente do Cooperativismo? O desconhecimento, pois muitas pessoas simplesmente não sabem como ele funciona”. 

É aqui que a Carol Mussolini nos deixa com sua reflexão final: “pensando nesse sentido, só falta para o cooperativismo no pós-crise ter seu oitavo princípio. Essa ideia de inclusão de um princípio foi da equipe da revista MundoCoop ano passado. Este princípio seria a Comunicação. Precisamos mostrar para as pessoas o quanto o cooperativismo é incrível!”.  

Afinal, cooperativismo é sinônimo de colaboração desde 1884 – e em time que está ganhando há mais de cem anos não se mexe. 

 

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