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Esse mundo digital: o que podemos aprender com o coronavírus

23 de março, 2020

“Se algo for matar mais de 10 milhões de pessoas, é mais provável que seja um vírus altamente contagioso, do que uma guerra”. 

Não, não foi um vidente que disse isso. Foi Bill Gates, fundador da Microsoft. Em 2015, durante sua breve palestra no Ted Talk, ele conseguiu prever a situação atual com assertividade. Para isso, levou em consideração dados e análises sociais sobre o contingenciamento do surto de ebola e as dimensões de uma epidemia de gripe, semelhante à gripe espanhola, de 1918, no mundo de hoje. 

Como podemos ver, ele não precisou de bola de cristal para chegar à conclusão de que o mundo não estava pronto para uma pandemia…

Cinco anos se passaram desde esse Ted Talk e acho que já podemos admitir: Bill Gates estava certo. Não estamos prontos. Prova disso é que estamos vivendo uma situação sem precedentes no mundo moderno, com um índice de isolamento social altíssimo. 

Desde janeiro de 2020, com os primeiros casos surgindo na China, as regras do jogo da socialização mudaram. Não cumprimentar com beijos, abraços e apertos de mão, fora da Ásia, ainda era uma escolha; hoje, evitar contato direto pode ser a diferença entre a vida e a morte, principalmente para pessoas em situação de risco, como os idosos e problemas com doenças crônicas do trato respiratório e/ou endócrino. 

E, se não nos tornamos prontos em todos esses anos anteriores, é hora de aprendermos conforme as coisas acontecem. As reações ao vírus nos levam a pensar em itens da vida para os quais nem sempre damos a devida atenção, como higiene, cuidado com o próximo, relações consumeristas e, claro, a comunicação em tempos de quarentena mundial.

Como podemos continuar sendo uma sociedade ativa e atuante se espera-se que cada um fique em sua própria casa pelos próximos dias?

Quem tem ideias vai à Roma

A Itália, minha terra natal, está sofrendo demais com o alastramento do COVID-19. Uma das razões pelas quais tantas pessoas lutam pela vida no meu país é a lentidão da resposta governamental ao problema. A Europa, como um todo, não acreditou, a princípio, que o coronavírus teria a proporção que hoje conhecemos. 

Por lá, muitas cidades proibiram os cidadãos de saírem às ruas, visto que um dos únicos meios conhecidos para esmagar a curva de contágio é não ter contato. Confinados dentro de suas casas, meus compatriotas tiveram que entender como lidar com a situação não preventivamente, mas, sim, enquanto ela se desdobrava. 

Assim, o mundo viu soluções que foram das mais, digamos, “inusitadas”, como sites italianos de pornografia que liberaram acesso grátis durante o período de quarentena para todas as pessoas, até situações comoventes, como cidades inteiras cantando, cada um em sua janela, para mostrar que ninguém está só, mesmo que esteja sozinho em casa. 

Os vídeos das cantorias, e do Papa andando livremente por ruas vazias da cidade de Roma, os memes sobre os sites pornô, a forma com que a China lidou com a situação de epidemia em seus meios digitais, tudo isso e mais algumas coisas me fizeram pensar: não nos preparamos para o hoje, mas existe muita oportunidade para entendermos o papel do mundo digital no amanhã. 

Estamos vivendo a construção histórica de uma nova forma de relacionamento, com pouco contato físico e muita virtualidade, e acredito que não daremos a isso o devido crédito até que o período sombrio passe. A verdade nua e crua é que os acontecimentos atuais ficarão para sempre na mente das futuras gerações.

Por isso, não se engane: somos todos responsáveis por aprender as lições vividas pelo coronavírus, tanto na questão da saúde pública e da contenção de epidemias quanto nas formas de utilizar a tecnologia a nosso favor.

Eis o que eu já percebo de mudança nesse sentido – e compartilho para que você também sinta a esperança que tenho de sairmos dessa experiência como pessoas melhores em um mundo melhor.

Reinventando o lazer

Morando no Brasil e vendo a situação italiana se agravar cada vez mais, fiz o que todo filho preocupado faz: liguei para os familiares para saber como estavam as coisas por lá. Contudo, a ligação caía continuamente, sem que meus parentes conseguissem me explicar o que estava acontecendo.

Há pouco tempo descobri o motivo: as infraestruturas de telecomunicações da Itália estão sobrecarregadas, já que a banda larga está sendo utilizada em escala jamais vista no país.

Sem poder sair de casa (por lá, o isolamento social é compulsório, ou seja, não é uma escolha do cidadão, e sim uma regra), as pessoas estão passando horas no FaceTime, falando com familiares de outras localidades, subindo e consumindo conteúdos no TikTok e Instagram e limpando a lista de programas a ver na Netflix. 

O mais interessante é que não são só os super jovens, historicamente a maioria dos usuários dessas plataformas, que estão desfrutando do mundo digital para reinventar o lazer. Tomo pelo exemplo da minha mãe. Em uma das nossas últimas conversas, esse foi o diálogo:

– Andrea, vou jantar hoje com sua tia.

– Mas como é possível vocês jantarem juntas, se vocês não podem sair de casa?

– Vou preparar o jantar aqui, ela vai preparar o jantar lá e vamos ligar o FaceTime enquanto comemos. 

 Não vou mentir pra você, essa me pegou de surpresa. Mas, refletindo sobre isso, vi o quanto isso é óbvio: somos um ser social, que ficam naturalmente ansiosos e pressionados em situações de quarentena e isolamento. Nesse contexto, o digital vem para somar, para tentar diminuir esse espaço físico entre as pessoas.

Como li pela internet esses dias, “na ausência do abraço, a palavra precisa ter afeto”. 

A internet, sempre ela…

Estatísticas do Financial Times mostram que, durante seu período de tentativa de contenção do covid-19, o uso de aplicativos de jogos teve, em fevereiro, um aumento de 40% em relação a todo o ano de 2019. E, sem a eficiência dos serviços de delivery de comida na China, como o Metuan-Dianping, a quarentena radical na província de Hubei, por exemplo, não seria possível. 

Repensando o trabalho

Você viu que as ações da Zoom, sistema de videoconferência mais utilizado ao redor do mundo, subiu mais de 50% nos últimos dias? Os serviços em app da empresa também figuraram entre os mais baixados durante o início da crise. A mesma coisa ocorreu a outros players de trabalho remoto, como Slack, Microsoft Teams, Trello e outros.

Muitas dessas empresas, não prevendo a massiva procura em tão pouco tempo, encontram problemas em manter o serviço funcionando, devido à sobrecarga de usuários. Elas também são pressionadas a não visar apenas o lucro nesse momento de cuidados restritos, liberando acesso gratuito em situações emergenciais. 

A razão é simples: se não podemos ir ao trabalho, ter contato humano com os colegas e clientes, e também não podemos entrar de férias por tempo indeterminado, o trabalho deve entrar na nossa casa, com o máximo de eficiência possível dentro das limitações que muitas profissões possam ter a partir do home office.

Como diz um famoso comentarista de futebol, “a regra é clara”: quarentena significa ninguém sair de casa, a menos que seja absolutamente necessário – comprar comida, remédio, ir a um hospital em busca de ajuda médica. Trabalhar presencialmente não se enquadra nos critérios. Mas, com a ajudinha do digital, a segurança do trabalho também é possível.

Falo, de novo, da minha mãe, que é professora de medicina na Universidade de Genova. Ela sabe, pela natureza de sua profissão, que lotar uma sala de aula, hoje, não é a melhor ideia do mundo. Fui eu quem a ajudou a entender como usar o Microsoft Teams, juntando os alunos em um seguro ambiente digital. 

E quer saber? Esse é um caminho sem volta! Ela está adorando!!! Muita gente que vai desvendar agora as ferramentas digitais de trabalho vai se sentir da mesma forma, o que já nos obriga a repensar as políticas de trabalho remoto, ou home office, até por clamor popular.

Imagine as listas de benefícios que muita gente vai apresentar aos líderes depois da quarentena:

– é mais prático trabalhar de casa;

– a empresa economiza com aluguel de salas e contas fixas, como luz e água;

– não é preciso pagar transporte ou alimentação;

– a qualidade de vida aumenta quando as pessoas não precisam passar duas horas no transporte público para ir e voltar do serviço;

– menos pessoas no trânsito significa menos poluição na cidade;

– e por aí vai.

Claro, nem todas as profissões permitem home office. Enfermeiros, diaristas, lojistas (que ainda não descobriram o e-commerce ;p), guardas de trânsito vão ter que sair de casa para trabalhar. Mas será que todo mundo, todo mundo na cidade, precisa sair de casa para trabalhar, ou pode entregar naturalmente suas tarefas de casa, mesmo? 

Eu já considero o Brasil bastante maduro nesse sentido, ainda que tenhamos muito o que aprimorar no regime home office, mas a Itália me surpreendeu positivamente nesse sentido. Gente que nunca teria trabalhado de casa, não fosse um isolamento desse nível, fez isso – e adorou!

Já dá pra sonhar com as coisas boas que virão nesse sentido.

Reconquistando a ciência

Além de lazer e trabalho, tão importantes para a vida humana, também sou otimista sobre como o mundo digital vai deixar boas heranças sociais após o coronavírus. Pra começar, está revolucionando o sistema de saúde no mundo, aprendendo com o obstáculo enquanto ele se apresenta, para contrastar o vírus mortal.

Wu Tian, vice-presidente da Baidu, considerada o principal motor de busca da China, disse ao Fórum Econômico Mundial que o aplicativo Baidu Map utilizou big data para analisar, em tempo real, como é espalhado o vírus. Os dados recolhidos foram combinados ao movimento populacional na China como meio de prevenção ao alastramento desenfreado. 

A Alibaba, outra gigante chinesa, está utilizando a Inteligência Artificial para reconhecer COVID-19 em seu centro de pesquisas, a DAMO Academy. Através da IA é possível realizar tomografias de torso em até 20 segundos, com 96% de assertividade, para diagnósticos precisos. A tecnologia também é utilizada para experimentar moléculas no desenvolvimento de novas vacinas.

Uma coisa bacana que notei, pessoalmente, é a “briga” da população para derrubar as fake news nesse momento. Assim que uma notícia falsa surge em um grupo de mensagens – como a ineficácia do álcool em gel, por exemplo –, duas ou mais pessoas prontamente trazem dados apontando o erro. 

Isso é indispensável, principalmente porque muita gente ainda acha que o coronavírus é obra de alguma teoria da conspiração farmacêutica para vender Tylenol. E, pensando nisso, essas figuras saem de suas casas, agem como se não houvesse nenhum risco e contribuem para a contaminação comunitária do COVID-19.

Em outras palavras, o digital está motivando as pessoas a desmistificar fofocas sem sentido, afastando cada vez mais as famílias da pseudociência. Já não era sem tempo.

O mundo ideal

Existe uma conhecida frase no mundo dos negócios que diz: “onde há crise, há oportunidade”. 

E, quando a oportunidade não se confunde com o oportunismo (aumentar o preço do álcool, da máscara, instaurar o pânico para que a empresa X forneça a solução), ela nos permite sonhar com comunidades fortalecidas após os inconvenientes causados pela quarentena mundial.

E uma das muitas formas de fortalecimento virá, indiscutivelmente, do aumento da colaboração público-privada nas áreas digitais. 

Por exemplo: no Brasil, foi lançado pelo Ministério da Saúde o aplicativo Coronavírus SUS, em que o Sistema Único de Saúde informa à população, formas de prevenção ao vírus, principais sintomas, sintomas que devem levar o paciente a um centro de saúde – já que sintomas brandos não devem ser direcionados a pronto socorros, sob o risco de inviabilizar todo o atendimento – e as unidades de saúde próximas, caso o paciente realmente precise de atendimento médico. 

Nos Estados Unidos, o governo federal anunciou, de forma antecipada, um aplicativo, em parceria com a academia científica do Google, para fazer a triagem do atendimento para coronavírus pelo celular. Essa solução está em testes na Bay Area e será disponibilizada assim que tiver sua eficácia comprovada.

Já a Coreia do Sul desenvolveu aplicativos para monitorar estoque de máscaras em farmácias e drogarias, além de promover, em tempo real, um boletim de saúde dos cidadãos em quarentena. 

Assim, ao fazer considerações sobre o papel do governo na contenção de crises, e até onde ele pode ir em relação à iniciativa privada, estamos vendo um envolvimento maior desses dois setores na digitalização como arma de combate ao coronavírus.

Por aqui, sigo em isolamento desde o início da semana, quando voltei de viagem dos Estados Unidos, e não ando com pressa de sair dele. A minha saúde, a saúde da minha comunidade, é mais importante do que minha vontade de ir a festas, jogar futevôlei na praia ou tomar um chopp com amigos de longa data.

Estou tomando todos os cuidados de higiene recomendados e espero, de coração, que os hábitos de limpeza das mãos e utilização de máscara quando temos sintomas de doenças contagiosas – inclusive um simples resfriado –, fiquem entre a gente depois que a pandemia passar.

Afinal, ela vai passar; a gente também passa. Entre mortos, feridos e sobreviventes, nossa única obrigação, hoje, é aprender com a experiência para entregar um mundo mais saudável, seja em suas crises virais, relacionamentos sociais ou formas de trabalho, às futuras gerações. 

Então, quem sabe, Bill Gates possa falar, em seu próximo Ted Talk: mesmo não estando preparada para uma pandemia, a sociedade fez o que pode para vencê-la, utilizando o mundo digital como meio de sobrevivência.

Vinda de alguém que contribuiu ativamente para que o mundo digital existisse e fosse acessível, essa seria uma constatação e tanto. 

Ciao,
EU SOU O ANDREA

EMPREENDEDOR. PALESTRANTE. NÔMADE. CRIADOR DE CONTEUDO. INVESTIDOR. MINIMALISTA.

Aqui vai encontrar algumas idéias, reflexões e conteúdos sobre os temas que mais me apaixonam.

Desde como desenhar seu próprio estilo de vida, até como ter sucesso no meio da Transformação Digital, tudo é voltado a gerar provocações intelectuais que incentivem MUDANÇA em nossas vidas.

 

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