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Se você acompanha meus textos e podcasts, talvez possa ter a impressão de que eu defenda, como característica de um bom líder, a simpatia, ou a gentileza – até mesmo algo quase “carinhoso”. Mas, posso falar? Não acho nada disso.   O líder precisa ser empático, isso sim. Simpatia, gentileza e outras demonstrações de cordialidade são […]

Se você acompanha meus textos e podcasts, talvez possa ter a impressão de que eu defenda, como característica de um bom líder, a simpatia, ou a gentileza – até mesmo algo quase “carinhoso”. Mas, posso falar? Não acho nada disso. 

 O líder precisa ser empático, isso sim. Simpatia, gentileza e outras demonstrações de cordialidade são campos nos quais eu não entro, pois fazem parte de questões pessoais e até mesmo culturais, dependendo da nacionalidade do líder. 

 Só que não é raro errarmos ao tentar estabelecer a diferença entre simpatia e empatia. Acabamos, boa parte das vezes, utilizando as duas palavras como sinônimos, quando as características não são sequer cumulativas (não é porque uma pessoa é simpática que ela tem empatia, ou vice-versa). 

 Segundo a Thereza Weisemann, pesquisadora que estudou o impacto da empatia em várias profissões onde essa habilidade é importante, podemos compor a descrição de alguém empático a partir de quatro fatores:

  • Tomada de perspectiva: fundamentalmente é a habilidade de pegar a perspectiva de outra pessoa, ou de reconhecer a perspectiva de terceiros como a verdade deles e, portanto, invariável. No meu caso, já errei muito nisso: demonstrei pouca empatia quando meus times chegavam com picuinhas que, aos meus olhos, não eram nada demais, enquanto, para eles, era algo de tirar o sono. Sofri bastante no começo dos meus tempos na L’Oréal com isso…
  • Evitar julgamentos: isso não é fácil, ainda mais quando julgar parece ser até uma especialidade para algumas pessoas – geralmente, as que mais curtem uma fofoca. Eu evito bastante julgar os outros. Existe um ditado em italiano que diz “vivi e lascia vivere”, que significa “vive, e deixa viver”, lembrando-nos da importância de não julgar os outros. Mas, veja bem, não julgar não significa não se interessar pelos outros e suas escolhas e questões, ou não querer que eles se desenvolvam: por isso, em vez de julgar, precisamos fornecer feedback – e as duas coisas são bem diferentes. 
  • Reconhecer emoções em outras pessoas: isso é fundamental porque só ver as coisas da perspectiva do outro não é suficiente. Você precisa reconhecer quais são as sensações e sentimentos que a pessoa prova ao estar em determinada situação. Novamente sobre minha experiência na L’Oréal, se eu não tivesse feito o esforço de entender que, para alguns, um problema gerava medo, enquanto outros viam nele a fonte de motivação, não teria aprendido a gerir minhas equipes de forma assertiva.
  • Comunicar o seu reconhecimento das emoções alheias; afinal, é importante que a pessoa sinta que você a entendeu quando ela expressa suas questões particulares. 

 Não tem sensação mais libertadora do que encontrar um espaço seguro para diálogo quando você tem algo guardado, como, por exemplo, uma grande desmotivação, e seu gestor vai até você e te diz “Sei como você está se sentindo. Quer falar sobre isso?”.

Até aqui, ok, entendemos mais sobre empatia e podemos então dizer que empatia, no fim das contas, é se sentir como as pessoas e, no caso de ser impossível “se colocar nos sapatos do outro” – já que as realidades entre indivíduos podem ser tão diferentes que a perspectiva se torne irreal –, não julgar a verdade do outro pela sua régua. 

 Essa é, inclusive, uma definição… simpática, certo? Mas…

Diferença entre simpatia e empatia

Se você se considera (ou melhor, é considerada) uma pessoa simpática, sabe o que isso significa: ser simpático é, mais que qualquer outra coisa, ser aprazível.

 Em outras palavras, é ser agradável, amável, até mesmo cativante. Acredite quando eu digo que simpatia não só não ajuda nos negócios e na liderança, quando está sozinha, como, também, pode até atrapalhar.

Brené Brown, pesquisadora incrível que nos fala muito sobre empatia e vulnerabilidade, diz em um vídeo muito legal que empatia é uma espécie de “espaço sagrado” onde, quando alguém está no fundo do poço e grita “estou aqui preso! Estou sozinho. Está escuro. Estou perdido”, descemos até ele e dizemos “ei, eu sei como você se sente aqui embaixo, e você não está sozinho”.

 Simpatia já seria algo como olhar para baixo, pelo buraco do poço e gritar “nossa, tá ruim, hein! Mas quer um sanduíche, uma água de coco?”, para descontrair, ou dizer “pelo menos você está _________________ (insira aqui qualquer adjetivo ou substantivo que, embora seja agradável, é irrelevante para quem está no fundo do poço).

 É simpático tentar amenizar a realidade com (falso) otimismo. Se você já esteve frente a uma situação como visitar no hospital alguém que está, conscientemente, em seu leito de morte e falou algo como “pelo menos você é incrível e sua existência me inspirou” em vez de “pelo menos você está com o plano funerário em dia!”, você foi simpático. Você foi aprazível, agradável, amável. 

E, apesar de toda a boa intenção que demonstra com sua simpatia, ela não cura as pessoas em leito de morte, não é mesmo?

 Já a empatia é trocar o “pelo menos você” pelo “eu sei o que” ou “eu sinto o peso do seu fardo” ou “eu entendo a sua dificuldade”.

 Empatia é uma escolha própria, uma escolha vulnerável – e é obvio que não dá pra não tocar no o tema da vulnerabilidade, já que comecei esse papo falando da Brené Brown. A pergunta é: por que o líder empático tem que ser vulnerável? Resposta: porque ele tem que estar disposto a mergulhar em si mesmo e acessar aquela parte de sua memória que já viveu essa sensação ou algo similar.

 E empatia é fundamental nos negócios – e o projeto Aristotle, do Google, está aí pra nos provar. 

Os impactos positivos da empatia – no Google e em todas as empresas

Em 2012, o Google embarcou em uma missão de estudar centenas de times dentro da empresa, com o objetivo de entender a razão pela qual algumas equipes tinham mais sucesso que outras. Abeer Dubey, gerente na divisão de People Analytics, foi a responsável por tocar o projeto. 

 Fundamentalmente, após centenas de horas de pesquisas, Dubey descobriu que as equipes empáticas experimentaram mais igualdade, dividiam mais tempo de conversação nas reuniões e estavam mais dispostas a lidar com a insatisfação dos membros da equipe no momento, em vez de ignorá-la na esperança de que ela desaparecesse. 

 O desenvolvimento de um estilo de liderança empático também resulta em motivar as equipes a fazerem o seu melhor trabalho, reconhecendo as contribuições dos outros, cultivando uma visão compartilhada e construindo lealdade. 

 Essa empatia permitia que as equipes fossem mais colaborativas, e consequentemente tinham um impacto mais positivo no trabalho, e melhores resultados. E quais são os impactos positivos da liderança empática sobre os negócios?

 Acompanhe comigo:

Empatia impulsiona a criatividade

 Em um experimento científico feito pela Universidade de Illinois com 209 adultos, um simples exercício de empatia projetado para ativar a empatia impulsionou a criatividade dos participantes que tinham como alvo inovar através de uma nova linha de novas batatas fritas para mulheres grávidas.

 Não é preciso que ninguém esteja grávida ou já tenha estado grávida para entender as consequências científicas dessa condição: dores, enjoos, fome excessiva, cansaço, sono… vender qualquer coisa para uma mulher grávida é diferente de vender para uma não-gestante, já que a grávida tem, inclusive, preocupações diferentes acerca dos hábitos de consumo. 

 Quanto mais as equipes levam em consideração as dores, limitações e desejos dos outros, mais estarão abertas a pensar realmente diferente e trazer à mesa ideias novas.

Empatia melhora a capacidade de negociação 

 Um experimento do INSEAD, conduzido por Adam Galinsky e colegas, validou cientificamente que a empatia favorece o sucesso nas negociações. No processo, 146 negociadores foram traçados para a capacidade empática de assumir perspectivas, característica considerada como indispensável para prever o sucesso da negociação. 

 Em três negociações a tomada de perspectiva empática estava ligada à capacidade dos negociadores de descobrir acordos ocultos, tanto para criar quanto para reivindicar recursos na mesa de negociação.

Empatia é constantemente atrelada à boa liderança

 Em estudos do Management Research Group, a empatia foi considerada a principal competência para uma boa liderança – e um dos três indicadores mais fortes da eficácia de executivos.

 E, pense bem, a empatia é ainda mais necessária para o bom líder em um cenário onde todos trabalhamos de casa. Além de estarmos em busca de conexão humana, pois nos faz falta no dia a dia, devemos, como líderes, considerar que as pessoas não estão “levando os problemas de casa para o trabalho”, mas colocando o trabalho dentro da rotina da casa.

 Portanto, pense nisso quando, na próxima reunião (que, às vezes, poderia ser resolvida por e-mail), o cachorro de um colaborador estiver latindo ou a internet de sua sócia estiver lenta porque as crianças estão assistindo suas plataformas de streaming em vários dispositivos diferentes, ao mesmo tempo, porque a aula online do dia já acabou.

 Na crise de 2020, a diferença entre simpatia e empatia na liderança de trabalho remoto fica ainda mais evidente. Simpatia é chegar na sexta à noite ou sábado no grupo de WhatsApp do serviço e desejar um excelente fim de semana à equipe que trabalhou como pôde nos últimos cinco dias. Empatia é entender que o “trabalhar como pôde” não é sinal de corpo mole, e sim de um esforço hercúleo para administrar tudo ao mesmo tempo, em um período de extrema tensão para todos, e se colocar à disposição como “espaço sagrado” para dialogar sobre frustrações e, sempre que possível, revertê-las.  

 Para encerrar, é importante, então, lembrar que ser simpático, brincalhão ou sempre positivo não te faz ser uma pessoa empática, não importa o quanto a correlação entre as coisas seja sedutora. Mas, muitas vezes, essa simpatia ou extroversão é uma forma de não se conectar consigo mesmo por medo, o que pode te fazer ser ainda menos atento aos sentimentos do outro. 

 Então, cuidado! Não estou falando para você não ser simpático, mas para não deixar que a simpatia mascare outras condições que possam te prejudicar e prejudicar seu time.

 Agora, se você está do lado dos liderados, não se assuste com líderes silenciosos ou reflexivos: é mais provável que eles estejam se conectando consigo mesmo em profundidade e, por isso, saberão te dar ouvidos quando você precisar. Quem se conhece a fundo, e entende que o olhar do outro sobre a vida é tão importante quanto o próprio, vai saber exercer a empatia sempre que essa condição lhe for demandada.

 É isso que separa o líder brincalhão que, na hora que o calo aperta, solta um “pelo menos você tem um emprego” do que o líder mais sério que, nesse mesmo momento, vai falar “te entendo, me conta mais sobre isso”. 

 Faça uma avaliação de si mesmo e me conte: você é mais simpático que empático ou mais empático que simpático? O que pode aprimorar para alcançar uma liderança empática?

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