Inteligência artificial no direito: o que muda para advogados e para a Justiça? - Andrea Iorio
Inteligência artificial no direito: o que muda para advogados e para a Justiça?
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Andrea Iorio

1 de setembro, 2026 |
12 min

A inteligência artificial no direito já é usada para pesquisar informações, analisar documentos, resumir processos, preparar textos e identificar padrões em grandes volumes de dados. A tecnologia pode reduzir horas de trabalho, mas cria uma questão particularmente delicada para a área jurídica: quem responde quando uma resposta produzida pela máquina está errada?

No Direito, um erro pode interferir em contratos, processos, patrimônio e direitos de outras pessoas. Ganhar velocidade é interessante, desde que o profissional continue capaz de entender, conferir e defender o raciocínio utilizado.

Esse equilíbrio entre tecnologia e julgamento humano passa a fazer parte do trabalho de advogados, magistrados, departamentos jurídicos e demais profissionais do setor.

Como a inteligência artificial está sendo usada no direito?

A inteligência artificial no direito é usada principalmente para pesquisa, análise de documentos, organização de informações, elaboração de primeiras versões de textos e identificação de padrões.

Um advogado pode utilizar IA para resumir um processo extenso, comparar cláusulas contratuais ou organizar os argumentos apresentados pelas partes. Um departamento jurídico pode classificar contratos por nível de risco ou localizar informações específicas em centenas de documentos.

Também existem aplicações dentro do próprio Poder Judiciário.

Em 2026, o Conselho Nacional de Justiça lançou a versão 2.0 da plataforma Sinapses, criada para desenvolver, armazenar, compartilhar e auditar modelos de inteligência artificial utilizados pelos tribunais. O CNJ também passou a utilizar soluções para análise de grandes volumes de processos e identificação de padrões.

A tecnologia já está, portanto, dos dois lados da atividade jurídica: nos profissionais que apresentam argumentos e nas instituições responsáveis por analisar processos.

Como advogados podem usar inteligência artificial?

Advogados podem usar IA para preparar atividades, organizar informações e acelerar etapas que posteriormente serão revisadas pelo profissional.

Entre os usos possíveis estão:

  • resumir documentos extensos;
  • localizar informações em contratos;
  • comparar versões de documentos;
  • organizar cronologias de processos;
  • estruturar perguntas para reuniões com clientes;
  • criar uma primeira versão de um texto;
  • identificar pontos que merecem pesquisa adicional;
  • organizar argumentos favoráveis e contrários a uma tese.

Imagine um processo com centenas de páginas. A ferramenta pode ajudar a construir uma cronologia inicial, separar os principais fatos e indicar documentos relacionados a determinado assunto.

O advogado economiza tempo na organização, mas precisa voltar aos autos antes de utilizar qualquer informação.

Essa diferença é importante: a IA pode acelerar a leitura, mas não deveria substituir a conferência da fonte original.

Inteligência artificial no direito

A inteligência artificial pode fazer pesquisa jurídica?

A inteligência artificial pode apoiar pesquisas jurídicas, mas jurisprudência, legislação e referências precisam ser conferidas nas fontes oficiais.

Modelos generativos conseguem produzir respostas bastante convincentes mesmo quando uma informação está incorreta. Podem citar uma decisão que não corresponde ao caso apresentado, interpretar uma norma de forma inadequada ou até gerar referências inexistentes.

Em uma conversa informal, um erro desses pode ser inconveniente. Em uma petição ou parecer, pode comprometer todo o trabalho.

Uma forma mais segura de utilizar a tecnologia é pedir que ela ajude a definir o que pesquisar, em vez de tratá-la automaticamente como a fonte da pesquisa.

Por exemplo, o profissional pode solicitar:

“Quais pontos jurídicos preciso investigar neste caso?”

Depois, consulta legislação, jurisprudência e documentos oficiais para confirmar cada questão.

A IA ajuda a estruturar o caminho. A pesquisa jurídica continua dependendo de fontes confiáveis.

Essa postura crítica diante das respostas das máquinas também é discutida por Andrea Iorio em Between You and AI, livro dedicado às competências humanas que ganham importância com o avanço da inteligência artificial.

Quer aprofundar essa discussão? Conheça Between You and AI, de Andrea Iorio, e entenda por que julgamento, pensamento crítico e capacidade de questionar ganham peso em um mundo orientado por IA.

A IA pode escrever petições e contratos?

A IA pode preparar primeiras versões de petições, contratos e outros documentos, mas o texto precisa passar pela análise do profissional responsável.

Uma ferramenta consegue organizar uma estrutura, melhorar a clareza de um trecho ou apontar inconsistências entre cláusulas. O problema aparece quando o documento é aceito porque “parece jurídico”.

Um texto pode estar bem escrito e juridicamente errado.

Há ainda elementos que dependem do contexto: estratégia processual, relação com o cliente, interpretação das provas, riscos comerciais e particularidades do caso.

O ganho mais interessante aparece quando a tecnologia reduz o tempo gasto na primeira versão e permite que o advogado dedique mais atenção ao raciocínio, à revisão e à estratégia.

Quais são os riscos da inteligência artificial no direito?

Os principais riscos são informações falsas, exposição de dados, reprodução de vieses, perda de confidencialidade e confiança excessiva na resposta automática.

A própria OAB vem ampliando a discussão sobre esses pontos. Em maio de 2026, o Conselho Federal destacou responsabilidade profissional, segurança da informação, confiabilidade dos resultados, ética, governança e proteção de dados entre os temas que precisam acompanhar a adoção da IA na advocacia.

Um cuidado especialmente relevante envolve os dados inseridos nas ferramentas.

Processos e documentos jurídicos podem conter nomes, informações financeiras, dados de saúde, estratégias empresariais e outros conteúdos protegidos. A LGPD estabelece regras para o tratamento de dados pessoais e prevê proteção reforçada para categorias consideradas sensíveis.

Copiar integralmente documentos de clientes para uma ferramenta sem conhecer suas condições de uso pode criar um problema que não existia antes da automação.

Esse tema também aparece no Metanoia Lab | IA, Liderança e Futuro do Trabalho, podcast de Andrea Iorio sobre inteligência artificial, decisões, comportamento humano e transformação profissional.

A inteligência artificial vai substituir os advogados?

A IA tende a assumir algumas tarefas realizadas hoje por advogados, mas isso não significa o desaparecimento da profissão. Atividades baseadas em pesquisa inicial, organização de documentos e produção padronizada são mais fáceis de automatizar.

Ao mesmo tempo, outros aspectos ganham peso: interpretar situações ambíguas, negociar, construir uma estratégia, compreender interesses conflitantes e explicar consequências para o cliente.

Um contrato pode ser tecnicamente correto e comercialmente ruim. Uma tese pode ser juridicamente possível e pouco recomendável para aquele cliente. Uma disputa pode ser vencida no processo e prejudicar uma relação que a empresa queria preservar.

Essas escolhas exigem contexto.

O profissional que baseia seu valor somente em produzir documentos provavelmente sentirá uma mudança maior. Quem utiliza conhecimento jurídico para orientar decisões pode usar a IA para reduzir trabalho repetitivo e dedicar mais atenção justamente às atividades que exigem interpretação.

Leia também:

Quais competências os profissionais do direito precisarão desenvolver?

Profissionais do direito precisarão combinar conhecimento jurídico com pensamento crítico, capacidade de formular perguntas, interpretação de dados e compreensão dos limites da tecnologia.

Saber utilizar uma ferramenta de IA ajuda, mas saber quando não confiar nela pode ser ainda mais importante.

Também será necessário explicar decisões com clareza. Um advogado não pode justificar uma orientação ao cliente dizendo simplesmente que “a IA recomendou”.

Ele precisa compreender o raciocínio, confrontá-lo com as normas e assumir a posição apresentada.

Essa mudança coloca competências humanas no centro de uma profissão cada vez mais tecnológica.

Como usar inteligência artificial no direito com segurança?

O uso mais seguro começa pela definição de limites claros. Antes de adotar uma ferramenta, escritórios e departamentos jurídicos podem definir quais dados podem ser inseridos, quais sistemas são autorizados e quais atividades exigem conferência obrigatória.

Também vale começar com processos de menor risco.

Resumir um documento para facilitar uma leitura é diferente de enviar automaticamente uma orientação jurídica ao cliente. Criar uma primeira versão de contrato é diferente de aprovar cláusulas sem revisão.

A pergunta não deveria ser apenas “a IA consegue fazer?”.

A pergunta melhor é: o que acontece se ela errar?

Quanto maior a consequência, maior deve ser a supervisão.

Prepare profissionais do Direito para trabalhar na era da IA

A inteligência artificial no direito muda pesquisa, produção jurídica e tomada de decisão. Para escritórios, departamentos jurídicos, tribunais e instituições públicas, acompanhar essa transformação exige compreender tanto as possibilidades da tecnologia quanto seus limites.

Andrea Iorio possui uma palestra dedicada justamente a esse debate: “O Futuro do Direito: Tecnologia, Decisão e Ética Pública na Era da Inteligência Artificial”, que aborda como IA, comunicação estratégica, ética pública e decisões baseadas em evidências estão redefinindo a atuação jurídica.

Quer levar essa discussão para seu escritório, instituição ou evento? Conheça as palestras de Andrea Iorio e consulte a disponibilidade para uma apresentação sobre o futuro do Direito na era da inteligência artificial.

Perguntas frequentes sobre inteligência artificial no direito

Como a inteligência artificial pode ser usada no direito?

Ela pode ajudar em pesquisas, resumos de processos, análise de contratos, organização de documentos e preparação de primeiras versões de textos jurídicos.

Advogados podem usar ChatGPT?

Podem utilizar ferramentas de IA como apoio, respeitando deveres profissionais, confidencialidade, proteção de dados e a necessidade de revisar as informações produzidas.

A inteligência artificial pode fazer uma petição?

Pode criar uma primeira versão, mas o conteúdo deve ser revisado pelo advogado responsável antes de qualquer utilização profissional.

Quais são os riscos da IA para advogados?

Entre os principais estão informações incorretas, referências inexistentes, vazamento de dados, vieses e confiança excessiva nas respostas da ferramenta.

A inteligência artificial vai substituir advogados?

Algumas tarefas podem ser automatizadas, mas atividades ligadas a estratégia, negociação, interpretação e responsabilidade profissional continuam dependendo da atuação humana.

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