Deixe-me contar um segredo sobre mim: apesar de eu ser um desastre no basquete, é o esporte que mais gosto de assistir. Sou particularmente fã da NBA e acompanho a liga mais do que qualquer outro esporte, especialmente durante os playoffs, que são sempre cheios de emoção. No ano passado, durante o quinto jogo da semifinal da Conferência Leste, o Milwaukee Bucks, que havia sido campeão na temporada anterior, foi derrotado por 4-1 pelo Miami Heat. Os Heat chegaram até as finais da NBA, mas perderam para o Denver Nuggets, liderado por Nikola Jokic.
A eliminação dos Bucks me surpreendeu tanto que, após o jogo, fiz algo que normalmente não faço: assisti à coletiva de imprensa. Quando Giannis Antetokounmpo, a estrela dos Bucks, pegou o microfone, ele compartilhou uma verdadeira lição de vida. Sua reflexão sobre o significado do fracasso, transmitida ao vivo para milhões de pessoas e amplamente disseminada no dia seguinte, deixou um forte recado para líderes, empreendedores e profissionais de todas as áreas.
Neste artigo, vamos explorar essa frase impactante de Giannis e discutir o que o esporte pode nos ensinar sobre o fracasso.
Giannis Antetokounmpo é um jogador de basquete que atua na NBA pelo Milwaukee Bucks, sendo o principal responsável por conquistar o tão aguardado título da liga após 50 anos. Nascido na Grécia, filho de pais nigerianos, Giannis é amplamente reconhecido como um dos melhores jogadores do mundo atualmente. No entanto, sua grandeza vai além das quadras — ele é uma pessoa socialmente engajada, além de extremamente inteligente e sábio.
Após uma recente derrota dos Bucks para o Miami Heat, liderado por Jimmy Butler, durante os playoffs do ano passado, Giannis foi questionado por um jornalista se ele considerava aquela temporada um fracasso. Sua resposta se tornou uma frase icônica. Ouça só:
“Ok, você me fez a mesma pergunta no ano passado, Eric. Você recebe uma promoção todo ano? No seu trabalho? Não, certo? Então, todo ano de trabalho é um fracasso, certo? Sim ou não? Não. Todo ano que você trabalha, você trabalha em direção a algo, em direção a um objetivo, que é conseguir uma promoção. Poder cuidar da sua família, poder proporcionar uma casa para eles, cuidar dos seus pais… você trabalha em direção a um objetivo. Não é fracasso, são os passos em direção ao sucesso. Então, se você nunca… bem, não quero tornar isso pessoal. Sempre há passos para isso, sabe: Michael Jordan jogou por 15 anos, ganhou 6 campeonatos. Os outros 9 anos foram um fracasso? É isso que você está me dizendo. Não, estou perguntando: sim ou não? Ok, exatamente, então por que você me fez essa pergunta? É a pergunta errada, sabe: não há fracasso no esporte – há dias bons, há dias ruins. Alguns dias você consegue ser bem-sucedido e outros dias não. Alguns dias é a sua vez e outros dias não é. E é isso que o esporte é, você não ganha sempre. Outra pessoa vai ganhar. Simples assim: vamos voltar no próximo ano, tentar construir novos hábitos, tentar jogar melhor, não ter um período de 10 dias jogando mal, sabe, e espero que possamos ganhar um campeonato. Então, 50 anos de 1971 a 2021 que não ganhamos um campeonato, foram 50 anos de fracassos? Não, não foram – foram passos para isso, conseguimos ganhar um e espero que possamos ganhar outro.”
Quando eu tinha cerca de 12 ou 13 anos, comecei a competir no atletismo, especialmente em corridas de meio-fundo, variando de 800 metros a 5 km. Eu era bastante bom e cheguei a competir em campeonatos nacionais na Itália, vencendo diversas competições locais e regionais.
Agora, eu vencia todas elas? Claro que não! Nem mesmo o queniano Eliud Kipchoge, considerado por muitos o melhor corredor da atualidade — ou até da história, superando o etíope Haile Gebrselassie — vence todas as suas corridas.
Veja só: em 2023, Kipchoge venceu pela quinta vez a Maratona de Berlim, uma das mais prestigiadas do mundo. Esse triunfo veio apenas um ano após ele quebrar o recorde mundial no mesmo percurso, completando em 2:01:09, reduzindo seu próprio tempo em 30 segundos. Embora ele tenha sido mais lento na segunda metade da corrida em 2023 e não tenha batido seu recorde, Kipchoge provou novamente ser um corredor formidável na mítica distância de 42,195 km, registrando o oitavo tempo mais rápido da história. Na verdade, ele detém cinco dos 10 melhores tempos de maratona já registrados.
Mesmo com uma performance um pouco mais lenta, foi um feito extraordinário. No entanto, Kipchoge venceu todas as corridas que disputou? Obviamente, não. Ainda assim, ele é considerado o melhor de todos os tempos. O interessante é explorar o porquê disso. A verdade é que a analogia com Kipchoge e minha própria experiência como corredor mostra que, mesmo quando um atleta não vence sempre — o que pela concepção tradicional seria “falhar” —, ele pode ainda ser visto como um sucesso.
Para explicar melhor essa dinâmica, vamos seguir este raciocínio: como atleta de corrida e agora faixa preta de jiu-jitsu brasileiro (esporte que treino há 13 anos), tive minha cota de vitórias e derrotas. Aprendi que o fracasso é uma parte inevitável da jornada, tanto nos esportes quanto nos negócios. O que diferencia atletas e empresários de sucesso é a capacidade de lidar com o fracasso e usá-lo como uma oportunidade de aprendizado. Vou usar o exemplo de um desenvolvedor de software e como ele pode aprender com o fracasso, assim como um atleta:
- O fracasso não é o fim.
Como atleta, você pode perder uma corrida ou não melhorar seu tempo. No desenvolvimento, você pode escrever um código que não funciona ou criar um recurso que não atende às expectativas do usuário. O importante é lembrar que o fracasso não é o fim. Você pode tentar novamente e aprender com seus erros, assim como há sempre uma nova corrida, um novo jogo ou um novo treino. - Aceite o fracasso.
É natural sentir decepção após uma falha. No entanto, você pode escolher ficar preso nisso ou ver o fracasso como uma oportunidade de aprendizado. Atletas e técnicos revisam filmagens de jogos para identificar áreas de melhoria. No desenvolvimento, a mesma mentalidade pode ser aplicada em revisões de código e retrospectivas. Aprender com os erros significa entender o que deu errado e melhorar a partir daí. - Continue se adaptando.
Atletas enfrentam contratempos por uma série de fatores — erros próprios, lesões, falhas de comunicação ou até o clima. O mesmo acontece com desenvolvedores. Mesmo com seus melhores esforços, as coisas podem não sair como planejado. Adaptabilidade é uma habilidade crucial, pois permite ajustar-se às adversidades e continuar em busca de seus objetivos. Pense em um lutador de jiu-jitsu que, após uma lesão, precisa se recuperar e se adaptar ao treino — desistir não é uma opção. - Siga em frente.
Depois de aprender com seus erros, é essencial seguir em frente. Ficar preso a falhas passadas pode prejudicar seu progresso. Como atleta, hesitar em momentos decisivos pode custar caro. Para desenvolvedores, esse medo pode impedir a finalização de projetos. Aprenda com o que aconteceu, crie um plano de ação para o futuro e siga em frente. - O fracasso é parte do crescimento.
Talvez a lição mais importante que aprendi nos esportes é que o fracasso é uma parte natural do crescimento. Todo atleta enfrenta contratempos e falhas em sua jornada. O mesmo acontece no desenvolvimento. Se você nunca comete um erro, significa que está apenas no mesmo nível. Cada erro é uma oportunidade para aprender e crescer, e muitas vezes voltamos ainda mais fortes após uma derrota ou um contratempo.
O que realmente importa é que nosso objetivo, como indivíduos, é nos aprimorarmos em relação ao nosso “eu” de ontem, sem necessariamente competir para ser o melhor do mundo. Quando entendemos isso, os fracassos se tornam partes inevitáveis do processo que nos ajudam a evoluir, seja como atletas, desenvolvedores ou em qualquer outra área da vida.
Agora, você pode pensar: “Andrea, tudo isso faz sentido logicamente, mas na prática, emocionalmente, é difícil controlar minha reação ao fracasso.” Por isso, vamos analisar o fracasso do ponto de vista emocional para entender como podemos lidar melhor com ele e, assim como atletas resilientes, usá-lo como combustível.
Não é o fracasso em si que nos afeta, mas nossa perspectiva sobre ele. A forma como vemos o fracasso determina nossos pensamentos e emoções — e é isso que define como responderemos a ele. Muitos atletas veem o fracasso como o pior resultado possível. Mas, com a abordagem certa, até mesmo erros podem se transformar em sucessos.

