À medida que a IA automatiza tarefas cognitivas e impulsiona a expansão da infraestrutura digital, cresce o debate sobre uma possível revalorização dos trabalhos manuais — tanto por razões econômicas quanto comportamentais.
É fato que nos últimos anos, vimos grandes quebras de paradigma nos formatos de trabalho: do emprego fixo para o empreendedorismo, do escritório tradicional para o nomadismo digital, e um número crescente de executivos deixando carreiras corporativas para se tornarem solopreneurs. Eu mesmo sou um exemplo dessa transição.
Mas recentemente um post no Threads me chamou atenção por sugerir algo diferente — não apenas uma mudança de formato, mas de natureza do trabalho.
Um designer, Dan Queirolo, relatou estar deixando 20 anos de carreira em design para se tornar pintor residencial. Segundo ele, a decisão é uma preparação para um mundo em que a inteligência artificial avança rapidamente sobre atividades cognitivas, e que logo menos poderia substituir seu trabalho de designer. Ele não estava sozinho. Nos comentários, surgiram diversos relatos semelhantes: uma médica que passou a produzir pães de fermentação natural, uma advogada que se tornou adestradora de cães, e muitos outros exemplos.

Isso me remeteu imediatamente a uma frase de Geoffrey Hinton, também chamado de “padrinho da IA”: “Quer ter um emprego em 2030? Então estude para ser encanador.” Em paralelo, mais recentemente, em Davos, Jensen Huang, CEO da NVIDIA, afirmou que a expansão da infraestrutura de IA deverá gerar forte demanda por eletricistas e operários, à medida que novos data centers forem construídos.
Estamos diante de uma nova tendência estrutural? Uma migração do trabalho cognitivo — predominante nas últimas décadas — para o trabalho manual?
Há pelo menos duas razões que ajudam a explicar esse movimento.
A primeira é tecnológica. A IA já supera humanos em diversas tarefas cognitivas padronizadas: geração de texto, análise de dados, programação básica, atendimento ao cliente. Ao mesmo tempo, ainda encontra grande dificuldade em replicar habilidades manuais complexas, especialmente aquelas não repetitivas e realizadas em contextos imprevisíveis. O mundo físico é menos estruturado do que o digital, por causa de uma assimetria de dados (muito mais presentes no mundo físico do que no digital) — e isso importa.
Além disso, a própria expansão da IA exige infraestrutura física intensiva. Data centers, redes elétricas, sistemas de refrigeração e construção especializada criam demanda por profissionais técnicos. Nesse sentido, o avanço da economia digital depende, paradoxalmente, de uma base manual robusta.
Mas há uma segunda razão, menos óbvia e mais cultural.
Vivemos em um ambiente de hiperprodutividade, excesso de informação e pressão constante por desempenho cognitivo. O trabalho digital é, muitas vezes, fragmentado, mediado por telas e métricas. O trabalho manual, por outro lado, oferece tangibilidade imediata: algo concreto é produzido, reparado ou transformado.
No relato de Dan, há um elemento que vai além da estratégia profissional. Ele afirma estar há cinco dias sem tocar em um mouse ou computador — e nunca ter se sentido tão pleno. Independentemente de ser uma decisão economicamente ótima, há um componente psicológico evidente: controle, foco e qualidade substituem velocidade e volume.
Isso nos leva a uma pergunta mais profunda: será que estamos observando apenas uma reação pontual ao avanço da IA ou o início de uma revalorização estrutural das habilidades manuais?
Historicamente, o mercado de trabalho evoluiu da agricultura ao artesanato, do artesanato à indústria, da indústria ao escritório. Agora, com a automação cognitiva avançando rapidamente, pode haver uma recomposição de valor entre tipos de habilidade.
Isso não significa que todos abandonarão trabalhos “de cabeça” para se tornarem encanadores ou pintores. Mas pode indicar uma mudança na hierarquia de escassez. Se tarefas cognitivas padronizadas se tornam abundantes por meio da IA, habilidades físicas complexas e adaptativas podem ganhar relevância relativa.
A questão central, portanto, não é romantizar o trabalho manual nem decretar o fim do trabalho intelectual. É entender como a tecnologia redefine o que é raro, difícil de automatizar e economicamente valorizado.
Talvez a pergunta correta não seja “a nova riqueza está nas mãos ou no cérebro?”, mas sim: quais combinações de habilidades permanecerão escassas em um mundo onde o digital é cada vez mais abundante?
E você — em uma escala de 0 a 10 — quão preparado está para um cenário em que a natureza do trabalho muda mais uma vez?
Não se trata de saber trocar um bulbo ou construir uma casa sozinho. Se trata de entender com clareza quais serão as habilidades mais em alta – e tudo aponta às nossas mãos, e não apenas mais nossos cérebros.

