Como você já deve ter percebido em meus podcasts e palestras, eu sou um grande estudioso do erro e de como podemos aprender a partir dele. Pesquiso os estudos mais atualizados sobre o assunto, interajo com os principais experts e estou até escrevendo meu próximo livro sobre o tema. Por isso, você deve imaginar que eu seja um maestro na habilidade de aprender com meus próprios erros…só que não.
Mesmo sabendo que podemos primeiro, evitar de repetir erros evitáveis, assim como de aprender dos erros inteligentes, nós temos muita dificuldade em fazer isso. Pelo menos isso é o que acontece comigo: muitos dos erros que eu faço, são repetidos, e isso é devido a uma variedade de fatores, entre os quais ego, viés de confirmação, entre outros. Por isso, neste artigo que iremos explorar a neurociência do fracasso e do erro.
A Dra. Lila? Drª Lila Landowski é uma neurocientista na Escola de Medicina da UTAS, Diretora da Sociedade Australiana de Pesquisa Médica, Diretora da Epilepsy Tasmania. Além de ser uma comunicadora científica regular para a ABC, Lila é uma cientista premiada: foi vencedora do Prêmio de Jovem Realizador do Ano do Premier, finalista de Jovem Australiana do Ano na Tasmânia, e ganhadora do prêmio Young Tall Poppy.” Ouça a fala dela abaixo:
“Então, aqui está o que você deve fazer: prepare-se para um pouco de fracasso, certo? Teste-se sobre o tópico enquanto avança. Não espere até estar pronto. Se você está aprendendo algo, como futebol, não chute a bola direto para o gol, mude o ângulo, torne mais difícil, para que cometa erros. Não espere que tudo esteja perfeito antes de tentar, porque no final do dia, se você cometer um erro, estará liberando neuromoduladores que melhoram sua atenção, e se estiver fazendo certo, estará liberando dopamina em seu circuito de recompensa, o que faz você se sentir bem, mais motivado, e consolida a aprendizagem do que acabou de fazer corretamente, certo? É por isso que transformar a aprendizagem em uma espécie de jogo pode funcionar tão bem. É uma situação vantajosa de qualquer maneira para o nosso cérebro, certo? Então, quando você cometer um erro, sabe, não veja essa ansiedade como algo ruim. Mergulhe nesse sentimento e continue porque é realmente a maneira do seu cérebro ajudá-lo a ser o seu melhor. Está ajudando você a ser melhor do que era ontem.”
Na antiga Grécia, no século III antes de Cristo, Herão, Rei de Siracusa, contratou um artesão para fabricar sua coroa feita de ouro maciço. O Rei ofereceu uma bela quantia em dinheiro e forneceu o ouro necessário. Após alguns dias, o artesão entregou a coroa ao Rei, mas Herão, ao recebê-la, suspeitou que o artesão não havia usado todo o ouro fornecido. Para confirmar, solicitou que a coroa fosse pesada e através do resultado, constatou que, de fato, sua massa era igual a do ouro entregue para sua fabricação. Mesmo assim, Herão ainda desconfiava da mistura de prata no ouro. Sem saber como resolver o impasse, contratou Arquimedes, um renomado matemático e físico, conhecido por suas invenções e pela descoberta do número π, além da formulação do Princípio de Arquimedes.
Arquimedes, dedicado ao pedido do Rei, acabou encontrando a solução durante um banho. Ao mergulhar na banheira, notou que a água transbordava. Realizou então um experimento: submergiu a coroa em um balde cheio d’água e mediu a água deslocada. Repetiu o processo com barras de ouro e prata da mesma massa. Observou que a coroa deslocava mais água que o ouro, mas menos que a prata, concluindo que era feita de uma liga dos dois metais. Excitado, correu pelas ruas gritando “Eureka!”, que significa “descobri” em grego.
Essa história exemplifica a habilidade humana de pensar criativamente, mas ao mesmo tempo é importante notar que a palavra ‘Eureka’ deriva do verbo grego ‘heurísko’, que significa ‘descobrir’, e está na origem da palavra ‘heurística’. As heurísticas são ‘templates’ mentais que aceleram a tomada de decisões, economizando energia cerebral, mas também podem nos levar a repetir erros.
Mas para começar, o que acontece com nosso cérebro quando erramos? Entendendo os erros a nível neurológico, o psicólogo Jason Moser descobriu que, ao errar, ocorre um disparo de sinapses no cérebro. Há duas respostas cerebrais possíveis: a ERN, um aumento da atividade elétrica independentemente da consciência do erro, e a Pe, um sinal que reflete a atenção consciente ao erro.
Moser mostrou que não precisamos estar cientes do erro para que ocorra atividade cerebral. Isso indica que o cérebro cresce diante de desafios, entendendo ‘crescimento’ como aumento da conectividade e não do volume cerebral. Uma mentalidade de crescimento pode potencializar esse crescimento cerebral diante de erros.
Mas por que é difícil aprender com os erros? Isso se deve a barreiras mentais relacionadas às heurísticas. Embora nos ensinem que podemos aprender com erros, muitas vezes falhamos nisso e repetimos os mesmos erros. A ciência mostra que essa repetição é comum, destacando a importância de superar essas barreiras para um aprendizado efetivo.
E por que repetimos erros? Isso ocorre porque o cérebro cria uma resposta de ameaça a estímulos dolorosos com base em experiências passadas, mas mesmo assim, em pensamentos, padrões comportamentais e decisões, frequentemente repetimos erros, como chegar atrasado, procrastinar ou julgar pessoas precipitadamente. A neurocientista Pragya Agarwal, em seu livro ‘Sway: Unravelling Unconscious Bias’, explica que os seres humanos não são naturalmente racionais. A sobrecarga de informações nos exaure e confunde, então filtramos o excesso para ver apenas partes do mundo. Notamos repetições e tendemos a generalizar memórias, formando conclusões a partir de dados limitados e utilizando atalhos cognitivos. Isso cria um fluxo de informações reduzido, nos prejudicando na hora de conectar pontos e preencher lacunas com conhecimentos prévios, ou seja…nos prejudicando em nosso aprendizado a partir do erro.
Quais são alguns desses obstáculos? Vamos começar com o “viés de confirmação”: nossos cérebros, preguiçosos por natureza, exigem esforço para mudar padrões e atalhos já estabelecidos. Isso nos leva a recorrer a padrões de comportamento e ações antigas, mesmo sabendo dos erros, um fenômeno conhecido como viés de confirmação. Recorremos frequentemente ao ‘instinto’, que é um pensamento automático e subconsciente baseado em experiências passadas.
Um segundo obstáculo é o “ego”: Às vezes, mantemos padrões comportamentais e repetimos erros devido a um ‘efeito do ego’, que nos faz preservar crenças existentes. Um experimento conduzido em um estudo chamado: Haunts or helps from the past: Understanding the effect of recall on current self-control, pela Hristina Nicolova, Cait Lamberton, Kelly Haws (https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1057740815000728 ) mostrou que, quando lembrados de sucessos passados, as pessoas tendem a repetir esses comportamentos, mas o mesmo não ocorre com os fracassos. Ao pensar em fracassos, é comum sentir-se desanimado e recorrer a comportamentos confortáveis, mesmo que não sejam benéficos. Nosso cérebro tem um viés para informações e modelos antigos, conhecido como viés da familiaridade.
Mesmo assim é possível aprender com os erros!
Em um experimento feito na NYU (https://www.eurekalert.org/news-releases/809286) , macacos e humanos observavam pontos em movimento em uma tela, julgando sua direção. Os pesquisadores descobriram que ambos desaceleravam após um erro.
Quanto maior o erro, maior a desaceleração pós-erro, mostrando que mais informações estavam sendo acumuladas. No entanto, a qualidade dessas informações era baixa. Nossos atalhos cognitivos podem nos forçar a ignorar qualquer informação nova que possa ajudar a prevenir a repetição de erros.
Cometendo erros em uma tarefa específica, o ‘viés de frequência’ nos faz repeti-los. Nossos cérebros podem considerar esses erros como a maneira correta de executar a tarefa, criando um ‘caminho do erro’ habitual. Quanto mais repetimos as mesmas tarefas, mais fortalecemos esse caminho, até que se torne um atalho cognitivo permanente.
Diante deste cenário, o que podemos fazer? Temos a habilidade mental conhecida como ‘controle cognitivo’, que pode substituir os atalhos heurísticos. Pesquisas recentes em neurociência identificaram regiões cerebrais com ‘neurônios de auto-monitoramento de erros’, que monitoram erros e fazem parte de um processo de aprendizado a partir deles. Essa descoberta pode ajudar no desenvolvimento de tratamentos para doenças como Alzheimer, onde o controle cognitivo preservado é essencial.
Embora ainda não compreendamos completamente os processos cerebrais envolvidos no controle cognitivo e autocorreção, há medidas simples que podemos adotar. Uma delas é se tornar mais confortável com a ideia de cometer erros. Nossa sociedade costuma repudiar fracassos e erros, gerando vergonha. Porém, quanto menos culpados e envergonhados nos sentimos, mais abertos estamos a absorver novas informações que podem ajudar na correção dos nossos erros.
Dar uma pausa após falhar em uma tarefa pode ser benéfico. Reconhecer os fracassos e refletir sobre eles pode ajudar a diminuir o viés de frequência, tornando-nos menos propensos a repetir os mesmos erros e reforçar os caminhos do erro.

