O caso Neymar: quando talentos viram ativos milionários
Em 2017, algo incrível e histórico aconteceu.
Não, não foi a posse do Donald Trump. Nem a eleição do Emmanuel Macron. Também não foi o movimento #MeToo ou a prisão do Harvey Weinstein.
Foi algo que, se você gosta de futebol, com certeza vai lembrar: a transferência do Neymar do Barcelona para o Paris Saint-Germain por 222 milhões de euros.
Até hoje, essa é a transferência mais cara da história do futebol. A única que chegou perto foi a do Kylian Mbappé, também para o PSG, por cerca de 180 milhões.
É impressionante pensar em valores tão altos. E por muito tempo, esse tipo de disputa milionária parecia algo exclusivo do esporte.

Quanto vale um talento em inteligência artificial?
Agora, pensa comigo:
Quanto valeria uma “transferência” de um cientista?
Ou uma disputa entre as maiores universidades do mundo por um único pesquisador?
Provavelmente, nem chegaria perto disso.
Mesmo no mundo corporativo, por mais que CEOs sejam bem pagos, seus ganhos normalmente estão atrelados a desempenho, resultados, bônus…
Mas recentemente, algo mudou.
Com a ascensão da inteligência artificial, as grandes empresas de tecnologia começaram a tratar certos profissionais — cientistas de IA, engenheiros, empreendedores — quase como jogadores de futebol.
Gente com um conhecimento extremamente raro, sendo disputada a peso de ouro.
Quem pagar mais, leva.
E é justamente sobre isso que vamos falar hoje:
Essa nova lógica onde profissionais viram “transferências milionárias”, o papel da Meta nesse movimento… e, principalmente, o que isso revela sobre o futuro do mercado de trabalho.
A estratégia da Meta na corrida pela superinteligência
Vamos focar um momento na Meta Platforms — que você provavelmente ainda conhece como Facebook — e no seu fundador, Mark Zuckerberg, que, aliás, também é fã de jiu-jitsu e MMA… então já temos algo em comum.
A empresa tem gastado pesado recentemente em inteligência artificial. Tem feito aquisições, como a startup de IA agêntica Manus, por cerca de 2 bilhões de dólares, além da plataforma social de agentes de IA Moltbook.
Mais do que comprar empresas, a Meta começou a “comprar” algo ainda mais valioso: pessoas.
Investimentos bilionários e guerra por talentos
Um exemplo claro disso foi o investimento de 14,3 bilhões de dólares na Scale AI, muito ligado à aproximação com seu fundador, Alexandr Wang, que passou a liderar os novos Superintelligence Labs da Meta.
Esse laboratório tem um objetivo ambicioso: perseguir a chamada “superinteligência” — um sistema hipotético de IA que superaria a inteligência humana.
Agora, interessante… até aqui, os resultados estão longe de impressionar.
O laboratório já passou por múltiplas reorganizações em poucos meses, sendo dividido em diferentes equipes especializadas, e alguns talentos deixaram o projeto logo no início.
Além disso, os avanços em modelos como o LLaMA 4 foram bastante criticados quando comparados a concorrentes como o Gemini, do Google.
O novo “mercado de transferências” da tecnologia
Mas o Alexandr Wang não foi o único.
Desde 2025, a Meta Platforms teria feito ofertas agressivas para talentos da OpenAI e do Google DeepMind, com pacotes de compensação que ultrapassam os 100 milhões de dólares.
Um dos casos mais emblemáticos é o de Matt Deitke.
Nascido em 2001, ele teria se juntado ao laboratório de superinteligência da Meta em agosto de 2025, após aceitar uma proposta de cerca de 250 milhões de dólares.
E olha que curioso: fazendo uma conta rápida, isso dá mais ou menos o mesmo valor da transferência do Neymar.
Ou seja… não é só uma coincidência.
É um sinal.
O engenheiro de IA virou, literalmente, o novo jogador de futebol.
Claro, outras empresas também estão entrando nessa disputa — como a xAI, que desenvolveu o Grok e atraiu nomes como Ior Babushkin.
Mas esse movimento, hoje, tem um protagonista muito claro: a Meta.
A contradição da Meta: demissões em massa vs salários milionários
Agora… pausa aqui um segundo.
Não é essa mesma Meta que, segundo a Reuters, citando fontes internas, estaria planejando demitir cerca de 20% da sua força de trabalho?
Um em cada cinco funcionários. Globalmente.
Então deixa eu ver se eu entendi:
De um lado, pacotes de centenas de milhões para alguns poucos talentos…
Do outro, milhares de pessoas sendo desligadas.
Parece uma contradição enorme, né?
Mas calma — porque quando a gente olha mais de perto… talvez não seja exatamente uma contradição.
Por que a Meta está demitindo milhares de funcionários?

Veja só.
A Meta Platforms estaria planejando sua maior rodada de demissões desde a reestruturação de 2022–2023.
A empresa considera cortar cerca de 20% da sua força de trabalho.
Hoje, isso representa quase 79 mil pessoas — ou seja, estamos falando de mais de 15 mil empregos.
Se esse número se confirmar, será o maior corte da história da empresa.
E mais: proporcionalmente, maior do que todas as demissões de 2022 e 2023 somadas, que chegaram a cerca de 21 mil.
Custos e investimentos em inteligência artificial
Agora… por quê?
Existem dois fatores principais.
O primeiro é custo.
A Meta planeja quase dobrar seu capex este ano, chegando a algo próximo de 135 bilhões de dólares. E a maior parte desse investimento vai direto para infraestrutura de IA — data centers, chips, modelos…
Com direito a um plano ainda mais ambicioso: investir centenas de bilhões em iniciativas de IA nos Estados Unidos até 2028.
Produtividade e automação com IA
O segundo fator é produtividade.
A lógica é simples — e, ao mesmo tempo, brutal:
Se a IA permite que equipes menores façam mais, então você precisa de menos gente para entregar o mesmo resultado.
O impacto das Big Techs no mercado de trabalho global
E isso não é um movimento isolado.
Está acontecendo em toda a indústria.
A Block Inc. reduziu de 40% sua força de trabalho, citando explicitamente a IA como um dos motivos.
A Atlassian cortou cerca de 10% dos funcionários para redirecionar investimentos para IA e vendas corporativas.
A Amazon eliminou milhares de cargos, com o objetivo de simplificar estruturas e, ao mesmo tempo, acelerar seus investimentos em inteligência artificial.
O medo do mercado: quem será o próximo?
E quando você olha para esse padrão como um todo…
Começa a surgir um sentimento no mercado.
Uma certa ansiedade.
Talvez até um começo de pânico.
Porque a pergunta deixa de ser “se” isso vai acontecer…
E passa a ser “quem será o próximo”.
A nova lógica do mercado de trabalho na era da IA
Agora, o fato de a Meta Platforms — e outras Big Techs — estarem pagando salários de “jogador de futebol”…
Parece uma contradição.
Mas só na superfície.
Porque, no fundo, é exatamente a mesma lógica operando em dois extremos do mercado.
De um lado, empresas demitem milhares de pessoas.
Do outro, pagam pacotes astronômicos para um grupo minúsculo de pesquisadores e líderes de IA.
O fim da valorização da execução operacional
Isso não é incoerente.
É um retrato muito claro de uma mudança profunda no que o mercado passou a valorizar.
Durante muito tempo, o valor estava na execução.
Escrever código.
Produzir análises.
Operacionalizar processos.
Gerenciar fluxos.
Documentar, revisar, organizar.
Tudo isso continua sendo importante — mas são atividades, em grande parte, estruturadas, repetíveis e decomponíveis.
E justamente por isso… são as primeiras a serem comprimidas pela IA.
A ascensão da cognição rara
A IA não substitui tudo de uma vez.
Mas ela reduz drasticamente o custo de produzir esse tipo de trabalho.
E aí acontece algo interessante.
O “meio” do mercado começa a perder valor mais rápido.
Se antes uma empresa precisava de dez pessoas para produzir uma certa quantidade de código, relatórios ou suporte…
Agora talvez precise de seis. Ou quatro.
Desde que essas pessoas saibam operar com IA.
A eficiência sobe.
E a necessidade de volume de mão de obra cai.
Por que os salários no topo estão explodindo
E é exatamente por isso que os salários no topo explodem.
Porque essas empresas não estão pagando apenas por produtividade individual.
Elas estão pagando por algo muito mais raro: alavancagem cognitiva.
Um pesquisador ou líder excepcional em IA não vale tanto porque “produz mais”.
Ele vale porque pode mudar a trajetória inteira da empresa.
Mudar o produto.
Mudar a estratégia.
Mudar o futuro.
IA, venture capital e talento extremo
E quando você entra nessa lógica… o salário deixa de ser “salário” no sentido tradicional.
Passa a ser quase uma lógica de venture capital.
Ou de esporte de elite.
Se uma única pessoa aumenta significativamente a sua chance de liderar o próximo grande salto em IA…
Pagar 100 milhões pode parecer caro.
Mas perder essa pessoa para o concorrente… pode custar muito mais.
A polarização do mercado de trabalho
Em outras palavras…
A IA está achatando o valor da cognição padronizada…
E inflacionando, de forma brutal, o valor da cognição rara.
Ela não destrói valor de forma homogênea.
Ela redistribui valor — de forma desigual.
Ela reduz o prêmio da execução previsível,
aumenta o prêmio da visão estratégica…
e multiplica o prêmio da genialidade rara.
O futuro do trabalho: menos vagas e mais competição
E o resultado disso é um mercado de trabalho muito mais polarizado.
Menos espaço para funções intermediárias puramente operacionais.
Mais pressão sobre os “generalistas de execução”.
E muito mais recompensa para quem consegue combinar profundidade técnica com capacidade de decisão, contexto e originalidade.
Está mais difícil conseguir emprego?
Agora… os impactos disso já são visíveis.
Vamos ser honestos: está mais difícil conseguir emprego hoje.
Entre demissões em massa, contratações congeladas…
E agentes de IA fazendo o trabalho que equipes inteiras faziam há poucos meses…
O mercado mudou — e mudou rápido.
Três razões para a crise no mercado de trabalho
E isso acontece por três motivos principais.
O primeiro, a gente já viu: demissões em massa.
O segundo é que menos vagas novas estão sendo abertas.
Dados da Randstad mostram que a criação de vagas de entrada caiu cerca de 29% nos Estados Unidos.
E isso não é por acaso — muitas dessas tarefas iniciais agora já são feitas por IA.
IA substituindo equipes inteiras
E o terceiro motivo é ainda mais direto:
Hoje, agentes de IA conseguem fazer o trabalho que antes exigia equipes inteiras.
Ou seja… as empresas simplesmente precisam de menos pessoas para gerar o mesmo resultado.
O que é reverse recruiting?
E o mercado está tão desafiador que surgiu até um novo conceito: o reverse recruiting.
Em vez de headhunters trabalharem para empresas, eles passam a trabalhar para candidatos — cobrando uma porcentagem do salário para ajudá-los a conseguir uma vaga.
A pergunta final: qual é o seu valor no mercado?
Agora… vamos ser sinceros.
Pessoas como o Alexandr Wang não precisam de reverse recruiters.
Mas e você?
O quanto do seu trabalho ainda está preso na execução previsível…
E o quanto do seu valor está na sua genialidade rara?
Conclusão: o paradoxo do talento na era da IA
Porque existe um paradoxo aqui.
Quanto mais único você for nesse mercado…
Mais o mercado vai competir por você.
Quero que você reflita nisso tudo como dever de casa, e me conte.
Qualquer pergunta, reflexão, elogio ou até reclamação, pode mandar pelo meu site andreaiorio.com ou pelo meu Instagram @aiorio_br

